quarta-feira, 28 de julho de 2010

Com 16 anos

Era uma daquelas pessoas que se sentiam totalmente sem atrativos perante os olhares alheios. Depois de um longo período mergulhada nas paredes espessas da tristeza, sua alma doía de tanta felicidade, tal como quem come muito depois de ter passado fome. Era tudo muito confuso. Olhava para as traças e rabiscos da parede, evitando os olhos de seu pretendente.

- Mas você me ama mesmo? Tem certeza?

- É a única certeza que tenho.

- Mas não te mereço.

- Merece.

- Não, não mereço, nem sei quem sou.

- E quem sabe?

- Não sei, estou com medo.

- Medo de amar?

- Medo de que alguém me ame. Ninguém me amou antes. E se eu não te amar? Não quero me sentir obrigada a amar só porque sou amada pela primeira vez. Amar por obrigação estragaria o amor.

- Não se sinta obrigada a me amar, mas deixe que te ame.

- Não sei, vou pensar. Me dá uma semana?

- Tudo bem, meu doce, você é quem sabe. Te esperarei sempre. Tanto que te chamo de “meu doce”. É a primeira pessoa que chamo assim.

Ela sorriu tímida, exibindo apenas as gengivas para aquele rapaz que conhecera na fila do banco, horas atrás. As gengivas eram maiores do que os dentes. “Tchau”, despediu-se a estreante nos caminhos do amor. “Até, logo, meu doce”.

- Alô? – atende uma voz feminina.

- Olá, meu doce. Nos conhecemos hoje cedo, na padaria. Não sei explicar, mas acabei de descobrir que te amo. Uma prova disso é que te chamo de “meu doce”, coisa que nunca fiz com ninguém. Podemos nos encontrar pessoalmente, para eu olhar nos teus olhos, mesmo que seja pela última vez?

- Claro! – respondeu a voz feminina, demonstrando a euforia das folhas de erva cidreira nascendo em locais de muita água – me encontre na mesma padaria daqui a vinte minutos.

E o mentiroso seguiu, plantando sorrisos nos rostos de mulheres que considerava feias.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

AUGUSTO E CÉSAR

Augusto e César já haviam perdido a conta de quantos anos se passaram desde que se tornaram amigos. Eram dois homens de mais de trinta anos quando os fatos da presente narrativa ocorreram. Sempre gostaram de boa música e de longas conversas sobre tudo, desde adesivos para carros até a indústria cinematográfica.

Duas notícias puseram uma pequena curva na amizade dos dois: Augusto fora aprovado para um mestrado no Canadá, enquanto César era chamado para assumir efetivamente um cargo público federal. Despediram-se no aeroporto em meio a lágrimas e brindes com água sem gás. Prometeram mandar e-mails todos os dias e apostaram para ver quem casaria primeiro.

César largou na frente, pois já namorava Raquel há mais de dois anos. Raquel era linda como as modelos das propagandas de cerveja, e não precisou de um bisturi sequer para isso. Era também muito religiosa, e insistia muito para que César visitasse sua igreja.

- Vamos lá, não custa nada. É só uma reunião onde iremos conversar sobre temas da atualidade e depois vamos lanchar. Você não conversa tanto com o Augusto?

- Qual o nome da sua igreja?

- Ela não tem nome, não precisa. Não é o letreiro iluminado que identifica a igreja, mas a atitude dos seus membros.

- Hoje não. Não gosto de igreja.

- Acha que eu te convidaria se soubesse que você não iria gostar? A reunião vai ser na minha casa. Prometo te dar uma coisa muito especial quando acabar...

- Promete mesmo?

- Prometo! E você vai gostar muito...

Ele pensou e pensou. “Finalmente, depois de dois anos na seca, vai chover na minha floresta. É só ir para a bendita reunião, e depois música, jantar e sexo! Mas... o que a fez mudar de ideia? Deixa pra lá, o que vale é que vou me dar bem”.

Augusto chegou a Vancouver sentindo muito frio, mas estava empolgado com seu mestrado em educação. Sua vida no Canadá será totalmente previsível, voltada para sua formação, com uma farra aqui ou ali. De resto, voltará a ser citado nesta narrativa quando retornar ao Brasil.

Chegou o dia da reunião. Tomou um demorado banho, melhor do que se fosse sua mãe a lavá-lo. Vestiu cueca nova, meias novas, calça nova e camisas novas. Só os tênis eram os de sempre. E saiu.

Quando chegou à casa de Raquel, esta já o esperava, com seus amigos da igreja. Era um grupo aparentemente muito alegre e democrático. Não se vestiam como pessoas religiosas, nem o olhavam inquisitoriamente. Sentiu-se bem à vontade.

- Boa tarde, me chamo Cordélia Barroso, e sou a mestra deste grupo. Sinta-se em casa.

- Não se preocupe, sempre me sinto em casa, aqui.

O tema da reunião era este: “do que você tem medo?”

A mestra, muito descontraidamente, falou sobre seus medos. Um a um, cada membro falou sobre suas aflições. Enfim, chegou a vez de César. “Tenho medo de passar determinadas noites sozinho”, disse ele, olhando testosteronativamente para Raquel.

Cordélia levantou-se e posicionou sua cadeira de plástico na frente de César. Sentou-se, pegou suas duas mãos, olhou em seus olhos e disse: “alguém está me dizendo que, em breve, você não precisará passar uma noite sequer sozinho”. Você é especial, é precioso, precisa ser livre dos temores dessa vida”.

César não ouviu, sentiu aquelas palavras. Foram como soar de um potente subwoofer em seu peito. Tremeu. Sentiu gotas de suor descerem das sobrancelhas às bochechas. Aquela mulher possuía uma aura estranha, de divindade, ao mesmo tempo que era tão humana. Por uns instantes deixou de saber quem era. Logo voltou a si, com dupla fome. “Vamos comer, pessoal!”, disse a mestra, sem mais nem menos, largando as mãos do rapaz.

Eram cachorros-quentes. Todos comiam e falavam alto, ao passo que César tentava não sujar sua camisa nova com o molho posto em demasia no seu lanche. Inutilmente. Um grão de milho melado com os condimentos caíra na preciosa vestimenta. Cerrou os dentes para que não saísse o palavrão, afinal, estava no meio de religiosos.

Raquel sussurrou no seu ouvido:

- Daqui a pouco termina tudo, e vou te dar o presente.

“Eu sabia, bastava vir pra essa reunião e estava tudo resolvido. Dou uma coisa que ela quer, ela me dá uma coisa que quero. É hoje que eu tiro a libido da miséria!”. Coitado do jovem...

Um rapaz começou a tocar violão e cantar músicas do tipo “Sou apaixonado por Ti, Deus”, “Sou louco por Ti, Deus”, “Sou completamente alucinado por Ti, Deus”, enquanto seus colegas o acompanhavam harmoniosamente. César estava impaciente. “Deus não deixa ninguém doido, nem com alucinações”.

Raquel conversava baixinho com sua mestra, enquanto lavavam a louça. A impaciência do rapaz o levava a bater os pés no chão, agora acompanhando o ritmo da música. “Por que esse povo não vai embora?”.

Sem perceber, já não estava mais aborrecido com eles, de tanto carinho que lhe transmitiam. Era praticamente a sua família. Só precisavam ir embora, para que ele ganhasse a sua recompensa.

A cantoria para. A mestra pede a palavra.

- Hoje nosso amigo César ganhará um presente especial, dado diretamente pela nossa irmã Raquel. Pode entregar a ele. “Este grupo é tão democrático assim? Minha namorada vai anunciar isso na frente de todo mundo? LOL”

E ela coloca em seu braço uma pulseira, na qual se lia “eu sou uma pessoa especial para os meus irmãos”.

César não acreditava naquilo. No começo, um sorriso amarelo, depois expressão alguma, em seguida o rosto virava um completo “fuuu”. Fizeram um montinho para abraçá-lo, gritando “só falta tomar a sua decisão!”. Chama Raquel a um canto.

- Que merda é essa?

- É o seu presente. Não disse que ia gostar?

- Uma pulseirinha cor-de-rosa é o meu presente?

- Não é só uma pulseira. É um transmissor de reserva de poder espiritual.

- Transmissor de que?

- Use-a por cento e vinte dias e você receberá uma benção especial. Você tá vendo a alegria dos nossos irmãos? Pois é, tudo isso é por causa da reserva de poder espiritual que ganhamos. Você não quer ser feliz? Tudo o que tem a fazer é usar a pulseira.

- Vou embora. Informação demais para a minha cabeça. Decisão...

O rapaz, muito contrariado (epic fail) dirige-se à porta.

- Já vai? Tem certeza que não quer tomar sua decisão hoje?

Bateu a porta atrás de si e saiu. Minutos depois recebeu um SMS de Raquel:

VOCÊ ME FEZ PASSAR VERGONHA DIANTE DA MINHA MESTRA. ELA DISSE QUE VOCÊ NÃO SERVE PARA NAMORAR COMIGO E EU CONCORDEI. ADEUS.

Telefona imediatamente para sua namorada:

- Alô.

- Oi, aqui quem fala é a Cordélia.

- Passa o telefone para a Raquel.

- Não, se quiser falar algo, fale comigo, que sou sua mestra.

- Passa o telefone para a Raquel, sua FANÁTICA DE MERDA!

- Não vou passar. Você é um empecilho na caminhada espiritual da moça, será que não percebe isso? Eu tive o maior trabalho para fazê-la entender que precisava jogar fora tudo aquilo que não a edificava espiritualmente e você quer desfazer tudo? Ela jogou fora os CDs, DVDs e livros que não falavam do nosso Deus. Só faltava jogar fora você, e Deus criou a situação perfeita para que ela entendesse isso.

- Então você ORDENOU que ela terminasse comigo?

- Fui apenas um instrumento nas mãos de Deus. Agora ela está finalmente livre, para namorar e casar com um jovem da nossa igreja, seu ímpio. Ela já está predestinada a se casar com o irmão Dejalmir. Nossa profetiza já havia revelado isso.

- Peraí, jogou fora todos os livros, inclusive os que foram presentes meus? Vai se casar com o irmão quem?

- Sim. Essa semana ela fez isso. Agora está totalmente voltada para Deus.

- Ok, vou desligar. Não tem diálogo com você.

“Que Deus te liberte desses demônios”, sussurrou Cordélia Barroso, após desligar o telefone.

- Então, ele aceitou?, perguntou Raquel.

- Os demônios fizeram-no ter um ataque de ira.

- Coitado...

- Mas sorria, ele não te importunará mais.

- Será que fiz a coisa certa?

- Claro, meu bem! Você é princesa preciosa para Deus. Agora vamos planejar o restante da sua vida.

César tentou ligar de volta algumas vezes, sobretudo porque estava furioso com Cordélia, mas era repetidamente ofendido pela voz mecânica que dizia: “sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens, e estará sujeita a cobrança após o sinal”.

Desde aquele incidente não soube mais notícias de Raquel. Um ano e dez meses depois, foi buscar Augusto no aeroporto.

- Casaste?

- Não, as estrangeiras são muito esquisitas. E tu?

- Também não.

- Tenho uma ótima notícia para te contar: mudei de vida. Conheci um grupo muito alegre de missionários no Canadá, e eles me fizeram ver a verdade.

Mal Augusto terminava a palavra “grupo muito alegre”, César já se dirigia ao estacionamento, para ir embora, com medo do que viria. Dirigiu até o supermercado mais próximo com o intuito de comprar algo para comer. Na fila do caixa, cruza com alguém muito familiar: era Raquel, pálida e muito magra, com os olhos fundos tais como pratos de sopa vazios, praticamente irreconhecível. Segurava um bebê, tão magro quanto ela, que chorava muito.

“Vou fingir que nem vi”, pensou ele. Tarde demais.

- Não fala mais comigo, é?

- Oi, tudo bom?

- Tudo sim, olha a minha camiseta: “encontrei a verdade, sou feliz e mais bonita”. Este é meu bebê, Dejalmir Filho. Eu ia colocar o nome do meu pai, mas a minha mestra disse que não traria crescimento espiritual. E você, já tomou sua decisão?

- Que decisão?

- A de ser feliz como nós.

- ...

- O Dejalmir tava trabalhando perto na tua rua, reformando uma casa, mas sofreu um acidente e está parado agora. A mestra disse que foi falta de fé dele. Concordo com ela. Estamos vivendo do meu serviço.

- ...

- Eu sou empregada doméstica na casa da Cordélia. Estou muito feliz, porque tenho a oportunidade de conseguir mais e mais reserva de poder espiritual com ela. Este já é meu pagamento.

- ...

- Recebi a profecia de que vou ganhar um carro importado, no ano que vem, dependendo do número de aprendizes que eu fizer. Por causa da minha falta de fé eu quase desisti, quando as dificuldades aumentaram. Fui parar no psiquiatra, vê se pode?

- ...

- Ele me disse que a igreja me fazia mal, e quase acreditei. Tomei um monte de remédios controlados para depressão, ansiedade e alucinações, mas voltei a mim e me desculpei com a Cordélia, pela minha fraqueza. Não eram alucinações, era um dom maravilhoso que eu estava recebendo, mas perdi, porque não acreditei. Se a minha fé fosse maior, eu poderia ver o mundo espiritual! Agora, só depois de muita submissão.

-...

- Olha, é a sua vez.

- Não, não, pode passar, que eu pago.

- Obrigada! Dá tchau pro titio César, bebê! Tchau!

César quis pensar sobre tudo aquilo, mas já estava com dor de cabeça. Pagou as compras e foi embora, ouvindo “fake plastic trees” a caminho de casa. A partir daquele dia nunca mais conversou sobre nada com Augusto. Nem sobre adesivos automotivos, nem sobre cinema, muito menos sobre qualquer conceito de felicidade.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O MENINO E AS CINZAS

Sob o céu o menino tenta catar as cinzas do que fora mato, do que fora grama, do que fora flor. Sob as telhas quebradas o menino tenta desenhar estrelas no papelão da caixa de detergente em pó.

- Caminha, menino, vai banhar!

- Já vou.

Mas ele não vai, é teimoso. Brinca e tosse ao deixar cair sobre si a neve negra das queimadas que logo serão pastos. Ele nada sabe sobre neve, queimadas ou bois. Mas pensa que neve é algo que cai do céu e não é chuva. Pode ser branca ou preta. Não sendo chuva, é neve.

- Vovó, estão queimando o céu?

- Caminha menino, vai banhar logo, que tua mãe já tá chegando! Pergunta besta... não dá pra queimar o céu!

Diante da tina, tira o calção. Nem sabe por que tosse. Estão queimando o céu? Há cinzas na água também. Há cinzas por todos os lados.

- Vovó, é o apito do trem que faz a cinza cair?

E a avó esfregava o sabão em barra como se quisesse lavar a mente daquele menino de tantas perguntas.

- Não, meu filho, o apito avisa que o trem já vai ou que já vem.

- Então, vovó, quem está queimando o céu?

- Ninguém, menino, agora vai pegar um calção limpo pra vestir.

- Vovó?

- Oi, menino!

- A gente pode chover de baixo pra cima pra molhar o céu?

A senhora pequena, curvada pela força dos anos, esfrega a toalha na cabeça do menino. “Chover de baixo pra cima, só criança pra pensar uma coisa dessas mesmo”.

- Agora vai ver televisão, vai. E não se suja! (vai ver televisão que você não pensa mais na tosse, nem nas cinzas, nem na fome).

quarta-feira, 30 de junho de 2010

POEIRA, FULIGEM E UM DEDO D’ÁGUA

Chamo-me João Francisco Rosa da Silva. Contarei uma rápida história, sobre poeira, fuligem, poeira de novo e fuligem de novo. E sobre falta d’água.

Antes, um rápido esclarecimento: devo meu vocabulário ao meu pai, o senhor cujo nome carrego. Não estudei mais porque o coração me destinou ao fogo de palha de um casamento infeliz e efêmero. Quando dei por mim, era pedreiro. E dos bons, se estudasse engenharia…

Estava eu voltando para a minha humilde residência, por volta de meio-dia e vinte. Calor desgraçado. Para chegar em casa, preciso atravessar uma ponte. Na verdade, todo mundo precisa passar por ela.

Quando digo todo mundo não exagero. Caminhões, ônibus, caminhonetes, táxis de cooperativas, táxis de lotação, carros de passeio, centenas de motocicletas, algumas carroças, e, finalmente, os ciclistas, categoria na qual me enquadro.

Na minha cidade não há ciclovia. Se houvesse, mudaria de nome para motovia. É incrível a capacidade dos motoqueiros de passar por qualquer espaço que lhes for dado. Outro dia, sem exagero, vi um motoqueiro se equilibrar por cima do meio fio por uns cinqüenta metros só para ultrapassar um outro motoqueiro, que já se equilibrava no acostamento para ultrapassar outro motoqueiro, que ultrapassava, por sua vez, um carro, pela direita. Sim, tudo isso pela direita.

Como não há ciclovia, tenho de me aventurar por entre tudo o que fora citado acima, com a minha monark barra forte, comprada por vinte e cinco reais de um desconhecido que queria beber cachaça e estava liso. Calor de fritar carne no chão. Nunca fui lá, mas dizem que só perde para Teresina. Caixa de ferramentas na garupa, trânsito parado, exceto pelas motos. Esperei que passassem, e segui em frente, rumo ao feijão com arroz e bife, que aprontei antes de sair, cedo.

Consegui chegar no semáforo, que mudava de amarelo para vermelho. Posicionei-me à frente de uma caminhonete, de onde emanava uma música sertaneja muito bacana. Senti-me no lugar do motorista, curtindo a música no ar-condicionado do veículo. Sinal verde e buzina: “sai da frente, carniça!”. Era o motorista de há pouco. Não pude deixar de cumprir a ordem, ou o cidadão passaria por cima.

Cheguei à ponte. “Agora é a minha vez”, pensei. “Os carros todos parados, vou passar do lado dele e dar um dedo”. Passei. Dei o dedo, mas ele nem viu, pois falava ao celular. Me lasquei.

Finalmente cruzei a ponte e percorri o longo caminho restante até a minha casa. Quando olhei para os meus pés, estavam cor de poeira. Não soube discernir qual era a cor da poeira, nem me esforcei para isso, pois estava com fome. A única coisa que me incomodava mais do que a fome naquele momento eram os pés sujos. Lavei-os rapidamente com água de um pequeno balde marrom.

Entrei em casa. Fui ao fogão. Vi que todas as panelas estavam destampadas, pois, na pressa de sair, esqueci deste detalhe. Com uma colher, tirei a fuligem de cima do arroz e do feijão. Mas os bifes, estes teriam de ser lavados. O chão da minúscula cozinha estava cheio de marcas de havaiana, e a fome apertava mais e mais. Levei a frigideira e uma vasilha limpa para o jirau lá fora, e abri a torneira. Saiu ar. Esperei até que o ar saísse e a água desse o ar de sua graça. Nenhuma gota. Já passava de uma hora da tarde, deveria estar no serviço às duas. O jeito era lavar os bifes com água gelada mesmo.

Corri à geladeira como se ela fosse a minha mãe. Quando a abri, madrasta. Nada de água. Cinco garrafas pet vazias e uma com um dedinho só do líquido precioso. O que eu faria com um dedo de água? Uma lama no bife? Me lasquei.

Fui comer com a televisão ligada. Arroz e feijão frios, sem bife, com um dedinho de água para desentalar. Na propaganda, o imperativo: pague a sua conta de água antes do vencimento, e ganhe descontos especiais. Precisamos manter a qualidade da água que você aproveita. Nem almocei mais. Antes entrasse em casa com os pés sujos.

Me lasquei de novo.

domingo, 27 de junho de 2010

SOBRE CLÁUDIAS E CORAÇÕES.

I

            Desde pequeno, Walffrido Ricarte é um ótimo desenhista. Nada escapa aos seus olhos. Se fosse um poeta, seria parnasiano com cem por cento de acerto. Mais do que pouca luminosidade, detestava filas de qualquer espécie. Filas de banco, de farmácia, de hospital, de cartórios, e outras filas. Engarrafamentos para ele eram o inferno na terra.. Aterrorizou-se quando tomou ciência de que necessitava autenticar cópias de seus documentos no cartório de segundo ofício de notas, na ocasião de ser aprovado em concurso público. Suou frio. Fantasiou todos os improváveis eventos desastrosos que poderiam ocorrer naquela infame fila.

            Arrumou suas coisas e saiu, mas voltou na mesma pisada para pegar também seu material de desenho. Sentia-se mais seguro levando consigo seu mundo, que era um conjunto composto de seus olhos, mãos, lápis e papéis em branco, onde pudesse desenhar. Desenhar sempre o acalmava, não importando onde estivesse. Chegou a desenhar na travessia para Alcântara: todos enjoando ao seu redor, mas ele se manteve impassível, tal como um aficionado por meditar em posição de lótus, rabiscando a orla de São Luís, que desaparecia pouco a pouco enquanto se distanciava o barco. Depois rabiscou jangadeiros e redes de pesca, e o trapiche onde aportaria.

 

II

 

            Entrou no cartório, olhou para todas as pessoas ao redor, sentindo-se tonto foi em direção ao dispositivo de onde retiraria a sua senha, pegou-a e se sentou na primeira cadeira vaga que viu em sua frente, curvando-se para acomodar a mochila no chão, próxima aos seus pés. Não conseguiu levantar a cabeça. Era como o capacete do Juggernaut, de tão pesada. Decidiu abrir o zíper para retirar o primeiro lápis que viesse à mão e uma das folhas de alta gramatura que sempre carregava.

            Como Ali se levantaria, ali levantou seus olhos lentamente, olhando para todos os guichês, a procurar onde seria atendido. Sua senha era a trezentos e cinqüenta e nove, e a tela de cristal líquido exibia ainda a de número trezentos e quarenta e dois. Enfiou a mão na mochila novamente e tirou o maior número de páginas que conseguiu alcançar.

             Não lembra ao certo do guichê, pois é péssimo com números, lembrando apenas de que era o penúltimo, nele escrito “casamentos, nascimentos e óbitos”. Olhou para essas três palavras algumas vezes, sem encarar a pessoa que estava detrás do balcão. Começava a chover; velozmente o lápis se punha a coçar o papel, descrevendo as gotas que caíam nas folhas empoeiradas. Não chovia há vinte e sete dias. Alguém pisa no seu pé. Tenta segurar a dor pressionando o lápis no papel, quando sua ponta. Irritou-se mais pela ponta quebrada do lápis do que pelo pisão. Quem seria o filho de uma égua autor de tamanha atrocidade?

 

- ALÔ! ALÔ! TÁ ME OUVINDO AGORA? E AGORA? HÃ? JÁ, JÁ ESTOU AQUI SIM! CLARO QUE TROUXE! DEIXA EU VER AQUI! OI? TÁ AÍ AINDA? HÃ? TÁ TUDO AQUI SIM! TÁ, TCHAU! BORA ASSISTIR O JOGO AMANHÃ, SIM! TCHAU!

 

            Se alguma coisa faltava para Walffrido acatar como verdades universais todas as teses componentes das leis de Murphy, era alguém gritar no seu ouvido, combinando assistir ao jogo de futebol no dia seguinte com aquele sotaque irritante universal de boleiro. Agora não faltava mais nada. Correção: faltava um apontador para que retornasse ao seu desenho. Era um pesadelo em todos os sentidos: fila, gente mal-educada e o lápis sem ponta. Só faltava um poodle encardido mijar na sua perna.

            Reuniu suas últimas forças, girou o pescoço como uma coruja, a procurar alguém que pudesse socorrê-lo com um apontador. Passo a passo registrou algumas imagens em sua mente:

 

1) Um gordo com peitos enormes, usando o visual “sou metaleiro: roupa preta e coturno com ponta de alumínio é o que há”

2) Outro gordo com um telefone celular na mão.

3) Uma menina grávida, de pé, segurando as mãos de outras duas crianças, enquanto o provável companheiro cochilava em uma cadeira.

4) Um idoso comendo um milho cozido (onde conseguira um milho cozido naquelas circunstâncias?)

5) O penúltimo guichê: “CERTIDÕES: nascimento / casamento / óbito”. Sobre o balcão havia, entre outras coisas, um apontador verde, dos mais baratos que se vendem por aí.

 

            Olhando mais acima, deparou-se com uma imagem que lhe fora como uma grande rajada de vento que afasta a ardida fumaça do mato queimando. Trajando a camiseta amarela do uniforme do cartório, ela olhava fixamente para o monitor, enquanto habilmente digitava documentos de amores, frutos de amores, ou de amores evanescentes. O perfil à mostra era o direito, exibindo seus longos, negros e lisos cabelos, tentando escapar de uma presilha lilás, vulgarmente chamada de piranha. Walffrido fixou os olhos tentando identificar o brinco, era um coração com uma pedra no meio. Enquanto ela digitava, o coração agitava-se, em movimentos randômicos, expressivamente.

 

III

 

            Era magra. Braços finos de uma pele clara decorrente do passar o dia todo no cartório. Walffrido Ricarte detestava o senso comum de que o bronzeado é bonito. Detestava pessoas douradas. “Querem ser frangos, para atestar que estavam de férias”, pensava ele. Em algum momento da divagação do desenhista, ela levantou-se para buscar documentos em um móvel repleto de gavetas. Parecia concebida para ele. Alguma existência superior arquitetou e deu forma aos seus mais profundos anseios por beleza, e ela estava ali, agachada, quase a mergulhar na mais baixa gaveta. Não possuía atributos extraordinários ou excessivos. Suas formas eram devidamente proporcionais, desde o busto aos quadris, cujos detalhes cabem apenas à mente do jovem desenhista.

            Lembrou-se de uma música do Lenine, que dizia “magra, leve e calma, toda ela é bela, tudo nela chama”. Ela se levantou, ele desviou o olhar para a página onde terminaria o desenho da paisagem chuvosa. Chuva que caía sem piedade. Chuva agressiva, como os desejos do mundo. Quando ergueu seus olhos novamente – julgando-se o mais discreto dos homens – a moça estava a olhá-lo, com um leve sorriso no canto esquerdo da boca, algo como um dardo, para um alvo escolhido delicadamente.

 

IV

 

            Naquele instante ficou mais amarelo do que o uniforme que ela usava, quase se mijando de medo. Retribuiu timidamente o sorriso, e fez um gesto de “posso te perguntar uma coisa?” e ela sinalizou que sim. Dirigiu-se ao guichê olhando em seus olhos, que eram verdes.

 

- Posso usar seu apontador?

- Claro que sim, cadê o lápis?

- Aqui.

- Deixa que eu aponto para você.

- Ok.

 

            Aquele lápis alcoviteiro descarado permitiu que suas mãos se tocassem, revelando que ambas estavam geladas. “Deve ser por causa da central de ar”, mentiram ambos a si mesmos no momento.

 

- Aqui.

- Obrigado.

- Como é seu nome?

- Walffrido.

- Prazer, eu sou Cláudia. As pessoas te chamam de Wal?

- Não, não, só de Walffrido mesmo. Também sou chamado pelo sobrenome, Ricarte. Wal só a minha mãe usava, e eu pedi que parasse, pois todos riam de mim, dizendo que era Wal de Walesca ou de Waléria.

 

            Cláudia, que era uma moça extremamente recatada, exibiu um leve sorriso enquanto se acabava de rir, por dentro, da desgraça de um homem ser chamado por um apelido feminino e continuou a conversa.

 

- Posso perguntar por que tanta pressa de apontar esse lápis?

- É que eu desenho, aí alguém pisou no meu pé, e acabei pondo pressão demais no lápis e a ponta quebrou.

- Posso ver o que você estava desenhando?

- Se não for atrapalhar seu trabalho.

 

            Não acreditava que o modelo de todas as coisas belas que imaginava pedira para ver um desenho seu. Poderia dançar, mas soaria esquizofrênico. Preferiu os calafrios da imensa felicidade, que arrepiaram até os cabelos de seu nariz.

            Enquanto ela olhava o desenho, o coração agitava-se. Lembrou-se de como as chuvas da infância sempre pareciam cinzentas, com uma leve melancolia e algo de um frio na barriga.

 

- Nossa, que lindo! Você desenha pessoas também? Você me desenharia?

 

            A atendente do guichê ao lado que até calada já estava errada interrompe a conversa:

 

- Desenhar é coisa de menino. Tira a foto no celular e passa por blutúti. É mais rápido, e ainda dá pra usar o fotochópe pra ajeitar as feiúras.

 

            Foi completamente ignorada. Tanto por Cláudia, quanto por Walffrido, que mantinha o sedimentado posicionamento de que as lentes das câmeras jamais poderão se igualar ao olho humano, pois a elas falta a capacidade de interpretar o objeto representado.

 

- Celular não une o olho e o coração. No máximo, capta, com baixa resolução, uma imagem sem sentimentos, sem intencionalidade, sem interpretação. Nem imagem é. É apenas um conjunto de pixels tentando ser imagem.

 

            Cláudia tropeçou em sua própria respiração, naquele momento, levando a mão ao peito, como se, de propósito, sincopasse o ritmo cardíaco. Pressionou tanto o peito que o pingente de bailarina fez uma marca vermelha, que ela não veria até o momento de chegar em casa, à noite, e se olhar no espelho, nua da cintura para cima.

 

- ...

 

            Sua colega indignara-se, pois seu celular fora comprado por suados duzentos reais, só por causa da câmera e do dispositivo Bluetooth.

 

- Fala isso porque é pobre. Se pudesse comprar um desses aqui não precisaria ficar apontando lápis. Tá atrapalhando meu trabalho aqui.

 

            Cláudia olhou bem fundo nos olhos de Walffrido, e apenas com aquele olhar, conseguiu dizer-lhe o intraduzível. Mas ele entendeu.

 

- Então, obrigado pelo favor.

- De nada.

 

            Retornou ao seu lugar para concluir o desenho da chuva.

            Cláudia divertia-se com nomes estranhos de nubentes. Já não conseguia disfarçar seu sorriso. O rosto cansado de antes dera lugar a uma expressão pueril, de uma moleca que acabara de ganhar um jambo. “Meu nome só estará nesta tela se eu me casar ou se morrer. Deus me livre de morrer agora. E de casar também. Só tem homem ruim nesta cidade. Não sonho tão alto assim. Só quero me sentir amada.”

            Avidamente concluía seu desenho anterior, quando se pôs a pensar, o solitário rapaz.

            Cabe uma rápida advertência: não era feio. Era solitário porque não gostava da superficialidade das pessoas.

            “Tirar a foto em um celular... como se já não me bastasse ter que cruzar todos os dias com essas cigarras tecnológicas tocando tecnotudo... Tecnossamba, tecnovalsa, tecnobrega, tecnomelody, tecnoharmony, tecnovouencheratuapaciência... só consigo ouvir cigarras, não discirno as músicas. É torturante. Só perde pros meninos de roupinha colorida apertadinha e cabelo caindo na cara. Mais torturante ainda.”

            Pensavam ambos, cada um em sua ocupação, enquanto que, simultaneamente, escreveram: ele escreveu, abaixo da assinatura que deu ao seu desenho, o nome Cláudia; ela escreveu Walffrido com uma caneta de tinta muito forte em um papel em branco que estava sobre a mesa, e desenhou uma flor em forma de interrogação. Ambos sorriram.

            Já não se sabia quanto tempo havia passado. Ninguém queria olhar para relógios.

            O monitor avisava a Walffrido que a próxima senha seria a sua, então decidiu voltar à Cláudia, e pedir seu endereço de e-mail, porque telefone sairia muito clichê.

            No entanto, traiu-se pelo senso comum:

 

- Mas se quiser pôr o telefone também...

 

            Ela anotou não apenas um, mas dois endereços de e-mail, e o número de seu telefone celular. Walffrido guardou o pedaço de papel como guardaria uma nota de cem reais: com alegria, mas com muita cautela para nele mexer, para que não estragasse.

            Finalmente chegou sua vez, e realizou todos os procedimentos que deveria realizar. A chuva parara de cair. Sem mais, abriu a porta para ir embora, mas ainda olhou o interior do cartório refletido naquele vidro temperado, e Cláudia olhava para ele. Pensou em voltar, mas decidiu seguir, pois detestava lugares cheios de gente. No mais, precisava criar. Não mais sobre a chuva, mas sobre Cláudias e seus brincos de coração.

 

V

            Já do outro lado da rua, ouviu:

 

- Espera! Você esqueceu o envelope!

 

            Era Cláudia.

            Novamente Walffrido lembrou-se de Lenina:

 

“Segue / Enquanto suspiro / Toda /Cor de tempero / Cheira / Um cheiro tão raro / Clara / Cura o escuro / Ela / Braços de linha / Dengo / Cheio de manha / Durmo / E peço que venha / Acordo / E sonho que é minha”

 

- Aqui está. Vê se não vai perder por aí. Nem se perder.

- Obrigado. Desculpe te fazer sair do local de trabalho só para me entregar isso (disse descaradamente, fingindo uma carência absurda).

 

            Ela piscou:

 

- Por que você acha que eu sairia do penúltimo guichê para te entregar o envelope esquecido no primeiro?

 

            Mal ela concluiu sua frase foi puxada pela cintura e abraçada fortemente. Todos os poros do seu corpo abraçaram e foram abraçados. As folhas secas da castanheira foram levadas para longe pelo vento que anunciava uma próxima chuva. Ele não a beijou. Ela não o beijou. Todas as células se beijaram, embora lábios não tenham se tocado.

 

- Preciso voltar lá pra dentro.

- ...

- Quando vou te ver de novo? – perguntou a moça, com seus contentes olhos verdes.

- Se você quiser, hoje mesmo.

- Tá bom, eu saio às cinco e meia.

- Ok, vou fazer umas coisas aqui por perto e passo aqui cinco e meia.

- Até logo.

- \o

 

            Quando ela saiu, cinco e meia, ele continuava no mesmo local de antes, a esperá-la, pisando em folhas secas de castanheira, com um papel em branco na mão direita.

 

- Por que esse papel em branco?

- Era eu, antes de ti.

 

            Então ele vira a outra face da página e exibe a ela a silhueta de uma moça muito familiar. Ela sorri, com os três corações inquietos.

            Não sei por quanto vai durar este momento, mas o que há no verso da página que te entreguei me fez vivo, hoje. Poderia dizer mais vivo do que momento em que nasci, mas seria dramático demais, o que não combina comigo, que detesto clichês ou chavões. Simplesmente me sinto mais vivo. Devo dizer isso a ela? De que forma diria sem parecer um completo maluco? Não direi nada. Convidarei-a para comer costela de Adão na lanchonete da rodoviária”

            Então ela, que parecia lhe puxar as palavras do cérebro, pensou:

 

“ Não sei por quanto vai durar este momento, mas te conhecer, hoje, me fez sentir mais viva. Poderia dizer mais viva do que momento em que nasci, mas seria dramático demais, o que não combina comigo, que nunca consegui gritar com ninguém. É como se esses teus olhos vissem dentro de mim. Eu queria sair para lanchar, mas perdi a fome. Perdi a sede também. Só quero sentar em algum lugar contigo e ficar quieta, sorvendo poesia contigo”.

- ...

- ...

            Ele nada conseguia falar. Nem ela. Pegou-a pela mão e saíram caminhando. Ele assobiava “magra, leve e calma, toda ela bela, tudo nela chama”. Ela pensava no frio na barriga de quando via a chuva pela janela.

            Um ciclista passou, dizendo “que casal mais fofinho!”

            E os dois continuaram a caminhar até desaparecer no horizonte, em uma paisagem com poucas árvores e muita fumaça ao fundo. Era época de queimadas na região, e os olhos das pessoas ardiam por causa dessa fumaça.

sábado, 12 de junho de 2010

DEPOIS DO TERCEIRO DIA

Não terei pressa, novo texto.

Espero o teu momento de nascer.

 

Rôo as unhas que perdi na última escalada da parede, novo texto.

 

Disparo um laser na lua enquanto te espero.

Rego as plantas de fazer chá,

Pinto as paredes do meu quarto de escrever,

Respondo e-mails nunca lidos de três anos

E decomponho a fórmula de tudo.

É verde, amarelo, vermelho, verde, amarelo, vermelho, verde, amarelo e vermelho de novo.

A dança de todas as coisas parou no vermelho, novo texto.

 

O que queres?

Formatarei os discos rígidos com todos os textos antigos,

Pois eles não me interessam mais.

Haverá gigabytes só para ti, amigo desconhecido.

 

Não, não os imprimi. Verdade!

Não me tenhas por autor de potocas.

 

O que queres mais? Só a ti espero, novo texto. Por que me afliges?

Algum amor te prende no mundo dos textos não escritos?

Terei de ir aí, te buscar à força?

Jamais!

Recuso-me. Sou um cavalheiro.

Se queres vir, aceite este meu enésimo convite.

 

Aqui estarei, quando chegares, se chegares.

E enfim poderei dormir, ao final deste quarto dia de espera.

domingo, 6 de junho de 2010

Pedaços de telha.

Não podia ordenar aos curiós que cantassem, mesmo os engaiolados. Àquela altura só o ser órfão de amor importava, e, mais do que isso, a vontade de se saber existindo, mesmo que inacabadamente. Já era dia lá fora? Havia sol ou chovia? Vento em algum pé de cidreira? Poeira nos olhos dos homens que andam de motocicleta sem capacete ou óculos de proteção? Sua cabeça doía só de pensar nisso. Ainda assim sorriu a si mesmo no quarto vazio. Toca o telefone.

- Vamos sair? Qualquer lugar serve, só por sair mesmo, até a beira do rio, pra jogar pedaços de telha e ver quantas vezes eles pulam na água!

- Liga daqui a dez minutos, que ainda estou acordando, tá?

- Tá.

Como alguém conseguia conceber a manhã de domingo como tempo para jogar pedaços de telha na água? “Se não fosse meu amigo, mandava à merda”. Mas lá no fundo concordava com seu interlocutor. Ficar em casa não resolveria nada. Falta de amor não se cura com solidão. Tentou erguer-se pela esquerda, não pôde. Tentou erguer-se pela direita, não pôde. Parecia colado na cama, com a goma de seus devaneios. Enfim, imaginou-se a voar, então pousou. Toca o telefone de novo. Precisava mudar aquele ringtone, que parecia o corvo do umbral, a dizer “hoje eu quero sair só, hoje eu quero sair só”, com a voz do Lenine.

- Entao, vamos? Passo aí pra te buscar.

- Eu disse dez minutos.

- Já se passaram quinze!

- ... (aquela altura tomara consciência de que levou mais de dez minutos apenas para levantar da cama, mas não se importava com isso, afinal não podia mandar em nada, nem nos curiós cruelmente encarcerados).

- Pode vir.

- Ok. Chego aí em meia hora.

Visualizou uma lista do que precisaria fazer antes de sua carona chegar: escovar os dentes, tomar banho, passar a roupa que usaria, comer algo. Riscou o “comer algo”, pois faria isso na rua. Buzina de carro.

- Anda logo, rapaz, parece que morreu e não sabe!

- ... (naquele momento quase o mandou ir à merda, e continuava sem entender como alguém estava tão animado em uma manhã de domingo).

- Então, para onde iremos?

- Contanto que você pare no meio do caminho para esse lugar que não sabemos qual é, a fim de que eu quebrar o meu jejum...

- Não tomaste café ainda?

- Tomei, tomei. Por isso quero tomar de novo. (se estivesse numa sala de chat, usaria o emoticon ¬¬ decididamente).

- Tá, já sei onde pararemos. Mas, para onde iremos depois?

- ...

Definitivamente, falta de amor não se cura com esse tipo de pergunta. Solidão muito menos. Até a falta d’água de mais de três dias que o obrigou a tomar banho de cuia no quintal era menos desagradável do que sugerir um lugar para ir em um dia no qual não gostaria de ir a lugar algum. O carro pára. O lugar não parecia muito asseado. Malemolentemente, uma senhora, que já não gozava de seus melhores anos e aparência, bate o guardanapo encardido em uma mesa de plástico para afastas as moscas.

- Tem tapioca de dois real e de três.

- O que vem na de três?

- Tudo o que vem na de dois, mais leite moça.

- Custa um real a mais para pôr um pouco de leite condensado na tapioca?, bradou indignadamente, por saber que o leite condensado era de alguma marca genérica e de baixa qualidade.

- Se quiser. Se não quiser, leva a de dois.

Quis ir embora, mas seu (feliz) amigo, tomou a frente: “vê aí duas de dois e dois cafés”.

- Quero café não.

- Tá, duas de dois e um café.

O amigo feliz se chamava Max. Danilo era o nome do outro. Danilo possuía um grande poder de observação, e notou que a senhora da tapioca não usava um lenço, mas uma fralda na cabeça. Pendurada na saia cor-de-rosa encontrava-se outra fralda, que era usada para limpar as mãos. “Limpar ou sujar?”, disse, em voz alta, Danilo, inevitavelmente.

Ao cabo de três minutos de conversa sobre nada, ela traz as tapiocas e o café de Max. Comem rapidamente. Max paga e vão embora. Danilo não consegue tirar as fraldas da cabeça. O carro ia com as janelas abertas, e ele divagava sobre sua sensação de impotência diante da falta de amor. Se bem que se ordenasse a alguém que o amasse, já não seria amor, seria servidão. O amor tem algo mais. Tem algo de um campo de batalha. Esconder e mostrar-se, puxar o cabo de guerra, avançar e recuar, sobretudo recuar nas horas certas, para avançar eficientemente. Sentia-se não como um morto, mas um ferido das batalhas do amor.

- Chegamos. Quanta gente!

- É por causa da falta d’água, o povo vem lavar roupa, louça e tomar banho no rio.

- Junto com os cachorros?

- Sim.

- Vamos embora, que isso acabou com o meu humor. Lavar louças na mesma água em que banham os cães. Olha ali, tem uma senhora lavando fraldas, cara!

- Já que estamos aqui, por que não fotografamos isso?

Max pega a câmera no carro, imerso em uma quantidade inacreditável de repulsa pela cena que presenciara. Era passional, não tomava jeito. Se estava feliz ou triste ou irritado, qualquer tolo o poderia notar. Não possuía um estômago forte, então passou a câmera para Danilo, que avidamente fotografava o que lhe chamava a atenção.

- Lembra de quando éramos pequenos e jogávamos cacos de telha na água? Eu fantasiava que meu caco poderia saltar tantas vezes que chegaria à outra margem do rio. Eu cresci, o rio diminuiu, e as pessoas lavam cães, fraldas e louças com a mesma água. E as minhas fantasias acabaram.

- Nunca deixe de fantasiar, meu caro. Quando sairmos daqui e as imagens desaparecerem de sua mente, você voltará a pensar em cacos de telha e sonhos de menino. Vamos embora.

- Como você consegue ser tão frio?

- A falta de amor me fez assim. Eu não mando na companhia de saneamento. Tive de tomar banho de cuia hoje.

- Ok, vamos embora.

Pelo retrovisor, Max e a realidade se distanciavam, enquanto Danilo revia as fotos que acabara de tirar. Há cinco dias não havia água nos canos.