domingo, 5 de setembro de 2010

DOIS CAFÉS. DIGO, UM.

O poeta estava puto. Há mais de oito dias sem escrever uma linha, encontrava-se à beira da sanidade. Necessitava de alguma loucura para criar. Tudo era tão cotidiano, que o irritava profundamente.

- Marcos, traz um café com leite por favor.

- Mais café do que leite?

- Sim.

- Açúcar ao invés de adoçante?

-As coisas com adoçante ficam com sabor de adoçante, e não das coisas. Uma vida apenas com adoçante como opção seria insuportável. Nem seria vida.

- Eu nunca entendo dessas coisas, Sr.

O poeta indagou-se silenciosamente se poderia sentar-se em um real café, ser atendido por um garçom chique e pedir um expresso pensando em como por no papel as dores do mundo. Mas na realidade estava em uma loja de conveniência de um posto de gasolina, ouvindo pessoas com sotaques feios falarem sobre tudo na vida, exceto sobre poesia.

Uma garota magra entra na loja. Veste uma malha cor-de-rosa, jeans e leva nos pés sandálias brancas de plástico, cada uma adornada com um laço. O sutiã com estampa xadrez escapa por entre as reentrâncias da malha, enquanto o poeta a observa indiscretamente. Ela o ignora, senta-se na elevada cadeira de alumínio, enquanto a calça de cintura baixa deixa escapar uma calcinha preta, também decorada com um laço. Haveria mais laços onde o jeans não permitia a visão da calcinha? O poeta corou.

- Marcos, papel e caneta. E mais um café por favor.

- Mais café do que leite?

- Sim.

- Açúcar ao invés de adoçante?

- Sim, Marcos.

O poeta pôr-se a escrever sobre a moça magra de longos cabelos ruivos, com mechas loiras, provavelmente caras de algum salão de beleza.

ELA ALVA

Alva, com olhos amendoados.

Compridos cabelos, da cor de cobre.

Olha para o infinito. E além?

As mãos cerradas uma à outra. Vermelhas.

Sandálias brancas, pequena ela. Via outros,

Mas não se via diante do espelho.

O poeta puto por não poder criar.

E ela, o que era?

Era uma fotografia do porvir.

Na verdade ela não era alva, era como uma índia. Os cabelos não eram ruivos, eram negros. E Marcos, nervoso, na hora de entregar o café, derramou-o sobre o poema, inutilizando-o. O poeta? O poeta estava como qualquer outro: puto.

domingo, 22 de agosto de 2010

SARA JENNIFER

Dizem que a curiosidade matou o gato. Sara Jennifer pensava em como a falta de curiosidade matou o homem. E o homem dentro do homem. “Povo sem graça, só pensa em coisas da moda, não tem identidade. Todo mundo quer ser igual. É o planeta dos sem-rosto, credo”.

Chegara em casa mais tarde que o habitual, depois de uma desagradável discussão com sua melhor amiga, que resolvera mudar radicalmente de pele, seguindo a tendência dos “coloridos”. Lembrou:

- Que merda de visual é esse, Joyce?

- É o visual restart, meu bem. Significa reiniciar, começar de novo, fazer algo diferente. Agora sou nova, ninguém é igual a mim.

- Ninguém, exceto por todos os outros coloridos, né?

- Hã?

- Hã nada, Joyce! Negócio de pulseirinha verde berrante de espiral, calça rosa e camisa azul-bebê. Vitório, vem cá!

- Que é?

- O que você acha dessa nova aparência da nossa colega?

- Porra de armação rosa sem lente, tá doida?

- Não é doida, meu bem, é moda.

- Moda é o meu ovo. Ano passado, se alguém aparecesse com armação sem lente aqui na escola, todo mundo chamaria de doido. Agora é moda. Tomar lá longe...

- Você não entende do mundo fashion, Vitório.

- Mas entendo de gente escrota. E agora gente escrota colorida.

- Joyce, sai dessa, minha filha. Se te mandarem raspar a cabeça e fazer tatuagem de air bender você vai fazer também?

- Se me fizer única, sim.

- Ai, meu ovo do meio! Joyce de avatar aqui na escola, já pensou? Essa eu faço questão de filmar e por no Youtube.

Sara, que tinha consciência de onde tal conversa pararia, finaliza:

- Atenção vocês dois, vou filosofar agora, e acabar com esse papo furado: cada um é cada um, mas sabe o que a merda, digo, a moda, faz? Taca máscara na nossa cara sem pena. Aí esse povo sem noção vira tudo de ponta a cabeça, dizendo que ser o que a moda ensina é o diferente, e que ser você mesmo é falta de estilo. Vamos tomar uma coca-cola antes que o recreio acabe, que estou com sede.

domingo, 15 de agosto de 2010

MEIAS VERDE-LIMÃO

Longa vida ao mais do mesmo. A menina acordou um belo dia, depois de atingida múltiplas vezes com as idéias do revival oitentista, querendo ser retrô. Foi ao guarda-roupa da mãe, pegou uma saia pregueada dos tempos do glam rock, e experimentou. A internet disse que é bonito e ela creu.

Composição: All Star cor-de-rosa, meias verde-limão, a saia pregueada em um azul-colegial, a camisa da escola, bracelete vermelho de plástico, óculos escuros com armação combinando com o bracelete, cabelo sem chapinha (que o que há agora é cacho), e brincos de pena.

Foi para a escola torcendo para encontrar com o João, do terceiro, pelo qual era perdidamente apaixonada. “Vou dar umas reboladas com essa saia da mamãe, duvido se não vai me notar”. Mal ela fechou a boca de seu pensamento, apareceu o João. “Agora vou apressar o passo e caprichar no rebolado”.

- Jéssica, espera.

Ela finge não ouvir e aperta um pouco mais um passo, para se manter sempre à frente. Faltam apenas três quadras para chegar na escola.

- Jéssica, me espera, por favor.

Fingiu não ouvir novamente, se sentindo muito gostosa, no seu visual Lady Gaga do nono ano do ensino fundamental.

- JÉSSICA, ESPERA, QUE TENHO QUE TE FALAR UMA COISA ANTES DE CHEGARMOS NA ESCOLA!

O rapaz continuava seu apelo enquanto andava mais rápido para alcançá-la. No entanto, quanto mais rápido ele andava, mais ela aumentava a velocidade de seu passo e de seu rebolado, até que praticamente corriam os dois. Alcançou-a e a pegou pelo braço, ela virou languidamente e disse “tava me seguindo?”.

- Praticamente. Tem uma coisa que preciso te dizer, desde a hora em que te vi.

- Tem a ver com o meu novo visual?

- Tem sim.

- Pode falar à vontade, não se importe com as pessoas ao nosso redor, pois eu notei que todos viravam para me olhar.

- Jéssica, tenho que te dizer.

- Claro, João.

- A tua saia tá toda pra cima, presa na mochila. Tentei te avisar antes, mas você não me ouviu.

Depois daquele dia, Jéssica passou a tomar mais cuidado com saias e rebolados.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

OS GALHOS ARRANHAM JANELAS

Os galhos arranham janelas
E sombras de medo comunicam a noite.
Os homens que não estão de zero
Dormem o sono dos tolos.
Um grito de socorro
Ouve-se na madrugada afora,
Talvez da boca de um crossdresser em fuga.
O poeta é o observador,
Camuflado no caos de sua escrivaninha interior. 

domingo, 8 de agosto de 2010

Marcleysson dos Santos e Santos

Marcleysson dos Santos e Santos. Detestava o próprio nome, desde que tentou escrevê-lo pela primeira vez. Agora é homem feito, caixa de banco privado, e continua a detestá-lo. Não havia diminutivos agradáveis para tal nome, como Zeca ou Cadu. Em certa época perguntou a sua mãe:

- Mãe, por que não me chamo João ou José, ou até Mário?

- Eu queria Marcos, mas o seu pai decidiu homenagear um jogador de futebol que ele admirava muito.

- É, mamãe, muita ironia eu não saber jogar bola. Agora tenho que aturar o estigma.

- Pense pelo lado bom. Você carrega uma marca do seu pai.

- Uma marca, talvez. Uma cicatriz, com certeza.

A lua do meio-dia brilhava aguda durante o diálogo acima. No mesmo instante, em um hospital público da cidade, nasciam três crianças que seguiriam um destino parecido com o de Marcleysson.

PRIMEIRO SEGUNDO DOMINGO DE AGOSTO. VALENTINA.

Dia dos pais. Como pai, o meu primeiro. Ainda há pouco, falava com o Ernani no MSN. Tá certo que “te amo pra caralho” não é a mais bonita declaração que se pode fazer para alguém neste dia, sobretudo se a pessoa tem análise marcada para as dez da manhã. “As estrelas são assim, só têm tempo aos domingos”, concordo com isto – mas não digo só estrela, digo constelação: muitas estrelas em uma só. Escrevi e teclei ENTER. Já foi. Data melancólica, em que todos os amigos mais velhos, pais substitutos não intencionais, recebem a declaração citada acima, muitas vezes de forma não verbal, se vistos cara a cara. Bem aventurados os que têm amigos, porque podem dizer para alguém ou “alguéns” que sentem isso, o que foi dito no começo deste post. Poderia falar tudo isso através de personagens, como tenho feito nos últimos meses, mas resolvi mostrar o rosto. Dar o texto a tapa. Quase aos trinta, pai de uma menina, Valentina, que em alguns meses nascerá, vejo que a falta do “pai” me proporcionou a experiência da diversidade de figuras importantes ao longo de minha vida, que exerceram tal papel. Márcio, de quem carrego o nome. Tio Thomas me levando para andar de moto, me jogando dentro do tonel para não ser mordido pelos cães bravos, dizendo sempre para cuidar do corpo, para viver muito e bem. João Tavares traçando o mapa da poesia, tentando me manter longe do concretismo. Christiano dizendo “você tem que sair desta cidadezinha e correr atrás dos seus objetivos, você tem potencial” – foi ali que ele, fingindo tocar, me levou ao desejo de ser músico. Professor também. Ironicamente, poucos anos depois éramos colegas de classe na graduação em Filosofia. E os conselhos do literalmente grande amigo estavam sempre ali. Bigodinho de Cerilo Lalico, dizendo que não devemos prometer algo se não temos a intenção de cumprir. Xavier da Teresa, mantendo meus pés no chão com suas histórias sobre as vantagens de amar a mesma mulher todos os dias e ter um emprego público para sustentar as necessidades materiais de tal amor. Sergio às voltas com seus amores por cada descoberta de Isadora, disponível para ela vinte e quatro horas por dia, receitando Mozart e banhos de sol para ter uma menininha saudável e tranqüila. Arison e suas meninas, com a lição de que não é preciso falar alto para ter autoridade. Ernani em várias fases, desde o all star azul até o “adorniano às margens do Tocantins”, às voltas com as festas de aniversário do Pedro e os relatórios de pesquisa de seus pupilos, permeados pelo sopão com orégano (da próxima vez na minha casa – prometo que vou comprar carne de primeira). Seu Manoel da Coração, com suas belas histórias de quem faz estradas e cria bem os filhos. Augusto, pai de um casal. Valdecy, pai de meninos. Toly, pai de Murilo e de Danilo, tentando me ensinar a lidar com veículos de quatro rodas e filhos adolescentes. Sydney, de quem tenho aprendido que Deus é um pai amoroso. Muitos outros, que não cabem na página, cada um com seus caminhos e descaminhos, fizeram e fazem parte desta caminhada. Hoje eu, com Ana Rosa, Lucas, Murilo, Lucas de novo, Walysson, Thaís e muitos outros e outras. Bem aventurados aqueles que têm amigos. E professores. Se ouvir alguém dizer “eu te amo” com um palavrão como complemento, não se assuste. O palavrão é só para evitar o clichê. Feliz dia dos pais a todos.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A QUARTA CANTIGA DE SEU DESAMOR

Na cantiga dos peixes do aquário ela se perdeu. Não conseguiu lavar a contento o fundo de seu oceano particular. Ainda pingava o tanque de fibra, com restos de espuma na água encardida, enquanto os peixinhos dourados nadavam em círculos na vasilha de um real e noventa e nove centavos.

- Que foi, minha filha?

- Nada, só cansaço. – mas não era apenas um cansaço no corpo.

Era um cansaço surreal, a produzir as imagens da inquietude. Via o chefe, os copinhos de café, o barulho das impressoras matriciais, o telefone celular que tocava sua música mouca, e o reflexo de seu rosto pálido no monitor CRT do computador em que trabalhava. De repente todos os outros funcionários sustentavam aqueles pesados monitores ao invés de cabeças humanas.

“Será hoje à tarde”, pensou. “Devo ir ou não?”. Toca a campainha. Pelo interfone ela indaga o nome de quem estava do outro lado da porta. “Sou eu” – ela reconheceu a voz.

- Senta aí.

- Eu vim rápido, só para te pedir um conselho, pois você é a pessoa que considero mais competente quando se trata do coração.

- O que houve?

- Penso em pedir a Silvia em casamento. O que me diz?

- Há alguma coisa que te impede?

- Não, não há. Só a família, que não me aceita de jeito nenhum, porque sou mais baixo que ela.

- Sério? – e ela inevitavelmente riu.

- Seríssimo. Eles dizem que não querem ter netos baixinhos.

- E ela, o que quer fazer?

- Casar, ora.

- Então se case com ela, e torça para os filhos puxarem para a família materna. Desculpe, não pude perder a piada. Você me conhece.

- Tudo bem, então. Já me decidi. Vou casar. Agora vou andando, porque tenho que lavar o carro. Tchau.

- Tchau.

“Eu também me decidi. Não irei, para não me apaixonar. Mas não tenho coragem de telefonar e desmarcar. Vou fingir que adoeci.”

E assim permaneceu, recusando-se a receber carinho, a não ser dos peixes que nadavam em círculos. Essa seria a quarta vez.