domingo, 15 de agosto de 2010

MEIAS VERDE-LIMÃO

Longa vida ao mais do mesmo. A menina acordou um belo dia, depois de atingida múltiplas vezes com as idéias do revival oitentista, querendo ser retrô. Foi ao guarda-roupa da mãe, pegou uma saia pregueada dos tempos do glam rock, e experimentou. A internet disse que é bonito e ela creu.

Composição: All Star cor-de-rosa, meias verde-limão, a saia pregueada em um azul-colegial, a camisa da escola, bracelete vermelho de plástico, óculos escuros com armação combinando com o bracelete, cabelo sem chapinha (que o que há agora é cacho), e brincos de pena.

Foi para a escola torcendo para encontrar com o João, do terceiro, pelo qual era perdidamente apaixonada. “Vou dar umas reboladas com essa saia da mamãe, duvido se não vai me notar”. Mal ela fechou a boca de seu pensamento, apareceu o João. “Agora vou apressar o passo e caprichar no rebolado”.

- Jéssica, espera.

Ela finge não ouvir e aperta um pouco mais um passo, para se manter sempre à frente. Faltam apenas três quadras para chegar na escola.

- Jéssica, me espera, por favor.

Fingiu não ouvir novamente, se sentindo muito gostosa, no seu visual Lady Gaga do nono ano do ensino fundamental.

- JÉSSICA, ESPERA, QUE TENHO QUE TE FALAR UMA COISA ANTES DE CHEGARMOS NA ESCOLA!

O rapaz continuava seu apelo enquanto andava mais rápido para alcançá-la. No entanto, quanto mais rápido ele andava, mais ela aumentava a velocidade de seu passo e de seu rebolado, até que praticamente corriam os dois. Alcançou-a e a pegou pelo braço, ela virou languidamente e disse “tava me seguindo?”.

- Praticamente. Tem uma coisa que preciso te dizer, desde a hora em que te vi.

- Tem a ver com o meu novo visual?

- Tem sim.

- Pode falar à vontade, não se importe com as pessoas ao nosso redor, pois eu notei que todos viravam para me olhar.

- Jéssica, tenho que te dizer.

- Claro, João.

- A tua saia tá toda pra cima, presa na mochila. Tentei te avisar antes, mas você não me ouviu.

Depois daquele dia, Jéssica passou a tomar mais cuidado com saias e rebolados.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

OS GALHOS ARRANHAM JANELAS

Os galhos arranham janelas
E sombras de medo comunicam a noite.
Os homens que não estão de zero
Dormem o sono dos tolos.
Um grito de socorro
Ouve-se na madrugada afora,
Talvez da boca de um crossdresser em fuga.
O poeta é o observador,
Camuflado no caos de sua escrivaninha interior. 

domingo, 8 de agosto de 2010

Marcleysson dos Santos e Santos

Marcleysson dos Santos e Santos. Detestava o próprio nome, desde que tentou escrevê-lo pela primeira vez. Agora é homem feito, caixa de banco privado, e continua a detestá-lo. Não havia diminutivos agradáveis para tal nome, como Zeca ou Cadu. Em certa época perguntou a sua mãe:

- Mãe, por que não me chamo João ou José, ou até Mário?

- Eu queria Marcos, mas o seu pai decidiu homenagear um jogador de futebol que ele admirava muito.

- É, mamãe, muita ironia eu não saber jogar bola. Agora tenho que aturar o estigma.

- Pense pelo lado bom. Você carrega uma marca do seu pai.

- Uma marca, talvez. Uma cicatriz, com certeza.

A lua do meio-dia brilhava aguda durante o diálogo acima. No mesmo instante, em um hospital público da cidade, nasciam três crianças que seguiriam um destino parecido com o de Marcleysson.

PRIMEIRO SEGUNDO DOMINGO DE AGOSTO. VALENTINA.

Dia dos pais. Como pai, o meu primeiro. Ainda há pouco, falava com o Ernani no MSN. Tá certo que “te amo pra caralho” não é a mais bonita declaração que se pode fazer para alguém neste dia, sobretudo se a pessoa tem análise marcada para as dez da manhã. “As estrelas são assim, só têm tempo aos domingos”, concordo com isto – mas não digo só estrela, digo constelação: muitas estrelas em uma só. Escrevi e teclei ENTER. Já foi. Data melancólica, em que todos os amigos mais velhos, pais substitutos não intencionais, recebem a declaração citada acima, muitas vezes de forma não verbal, se vistos cara a cara. Bem aventurados os que têm amigos, porque podem dizer para alguém ou “alguéns” que sentem isso, o que foi dito no começo deste post. Poderia falar tudo isso através de personagens, como tenho feito nos últimos meses, mas resolvi mostrar o rosto. Dar o texto a tapa. Quase aos trinta, pai de uma menina, Valentina, que em alguns meses nascerá, vejo que a falta do “pai” me proporcionou a experiência da diversidade de figuras importantes ao longo de minha vida, que exerceram tal papel. Márcio, de quem carrego o nome. Tio Thomas me levando para andar de moto, me jogando dentro do tonel para não ser mordido pelos cães bravos, dizendo sempre para cuidar do corpo, para viver muito e bem. João Tavares traçando o mapa da poesia, tentando me manter longe do concretismo. Christiano dizendo “você tem que sair desta cidadezinha e correr atrás dos seus objetivos, você tem potencial” – foi ali que ele, fingindo tocar, me levou ao desejo de ser músico. Professor também. Ironicamente, poucos anos depois éramos colegas de classe na graduação em Filosofia. E os conselhos do literalmente grande amigo estavam sempre ali. Bigodinho de Cerilo Lalico, dizendo que não devemos prometer algo se não temos a intenção de cumprir. Xavier da Teresa, mantendo meus pés no chão com suas histórias sobre as vantagens de amar a mesma mulher todos os dias e ter um emprego público para sustentar as necessidades materiais de tal amor. Sergio às voltas com seus amores por cada descoberta de Isadora, disponível para ela vinte e quatro horas por dia, receitando Mozart e banhos de sol para ter uma menininha saudável e tranqüila. Arison e suas meninas, com a lição de que não é preciso falar alto para ter autoridade. Ernani em várias fases, desde o all star azul até o “adorniano às margens do Tocantins”, às voltas com as festas de aniversário do Pedro e os relatórios de pesquisa de seus pupilos, permeados pelo sopão com orégano (da próxima vez na minha casa – prometo que vou comprar carne de primeira). Seu Manoel da Coração, com suas belas histórias de quem faz estradas e cria bem os filhos. Augusto, pai de um casal. Valdecy, pai de meninos. Toly, pai de Murilo e de Danilo, tentando me ensinar a lidar com veículos de quatro rodas e filhos adolescentes. Sydney, de quem tenho aprendido que Deus é um pai amoroso. Muitos outros, que não cabem na página, cada um com seus caminhos e descaminhos, fizeram e fazem parte desta caminhada. Hoje eu, com Ana Rosa, Lucas, Murilo, Lucas de novo, Walysson, Thaís e muitos outros e outras. Bem aventurados aqueles que têm amigos. E professores. Se ouvir alguém dizer “eu te amo” com um palavrão como complemento, não se assuste. O palavrão é só para evitar o clichê. Feliz dia dos pais a todos.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A QUARTA CANTIGA DE SEU DESAMOR

Na cantiga dos peixes do aquário ela se perdeu. Não conseguiu lavar a contento o fundo de seu oceano particular. Ainda pingava o tanque de fibra, com restos de espuma na água encardida, enquanto os peixinhos dourados nadavam em círculos na vasilha de um real e noventa e nove centavos.

- Que foi, minha filha?

- Nada, só cansaço. – mas não era apenas um cansaço no corpo.

Era um cansaço surreal, a produzir as imagens da inquietude. Via o chefe, os copinhos de café, o barulho das impressoras matriciais, o telefone celular que tocava sua música mouca, e o reflexo de seu rosto pálido no monitor CRT do computador em que trabalhava. De repente todos os outros funcionários sustentavam aqueles pesados monitores ao invés de cabeças humanas.

“Será hoje à tarde”, pensou. “Devo ir ou não?”. Toca a campainha. Pelo interfone ela indaga o nome de quem estava do outro lado da porta. “Sou eu” – ela reconheceu a voz.

- Senta aí.

- Eu vim rápido, só para te pedir um conselho, pois você é a pessoa que considero mais competente quando se trata do coração.

- O que houve?

- Penso em pedir a Silvia em casamento. O que me diz?

- Há alguma coisa que te impede?

- Não, não há. Só a família, que não me aceita de jeito nenhum, porque sou mais baixo que ela.

- Sério? – e ela inevitavelmente riu.

- Seríssimo. Eles dizem que não querem ter netos baixinhos.

- E ela, o que quer fazer?

- Casar, ora.

- Então se case com ela, e torça para os filhos puxarem para a família materna. Desculpe, não pude perder a piada. Você me conhece.

- Tudo bem, então. Já me decidi. Vou casar. Agora vou andando, porque tenho que lavar o carro. Tchau.

- Tchau.

“Eu também me decidi. Não irei, para não me apaixonar. Mas não tenho coragem de telefonar e desmarcar. Vou fingir que adoeci.”

E assim permaneceu, recusando-se a receber carinho, a não ser dos peixes que nadavam em círculos. Essa seria a quarta vez.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Com 16 anos

Era uma daquelas pessoas que se sentiam totalmente sem atrativos perante os olhares alheios. Depois de um longo período mergulhada nas paredes espessas da tristeza, sua alma doía de tanta felicidade, tal como quem come muito depois de ter passado fome. Era tudo muito confuso. Olhava para as traças e rabiscos da parede, evitando os olhos de seu pretendente.

- Mas você me ama mesmo? Tem certeza?

- É a única certeza que tenho.

- Mas não te mereço.

- Merece.

- Não, não mereço, nem sei quem sou.

- E quem sabe?

- Não sei, estou com medo.

- Medo de amar?

- Medo de que alguém me ame. Ninguém me amou antes. E se eu não te amar? Não quero me sentir obrigada a amar só porque sou amada pela primeira vez. Amar por obrigação estragaria o amor.

- Não se sinta obrigada a me amar, mas deixe que te ame.

- Não sei, vou pensar. Me dá uma semana?

- Tudo bem, meu doce, você é quem sabe. Te esperarei sempre. Tanto que te chamo de “meu doce”. É a primeira pessoa que chamo assim.

Ela sorriu tímida, exibindo apenas as gengivas para aquele rapaz que conhecera na fila do banco, horas atrás. As gengivas eram maiores do que os dentes. “Tchau”, despediu-se a estreante nos caminhos do amor. “Até, logo, meu doce”.

- Alô? – atende uma voz feminina.

- Olá, meu doce. Nos conhecemos hoje cedo, na padaria. Não sei explicar, mas acabei de descobrir que te amo. Uma prova disso é que te chamo de “meu doce”, coisa que nunca fiz com ninguém. Podemos nos encontrar pessoalmente, para eu olhar nos teus olhos, mesmo que seja pela última vez?

- Claro! – respondeu a voz feminina, demonstrando a euforia das folhas de erva cidreira nascendo em locais de muita água – me encontre na mesma padaria daqui a vinte minutos.

E o mentiroso seguiu, plantando sorrisos nos rostos de mulheres que considerava feias.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

AUGUSTO E CÉSAR

Augusto e César já haviam perdido a conta de quantos anos se passaram desde que se tornaram amigos. Eram dois homens de mais de trinta anos quando os fatos da presente narrativa ocorreram. Sempre gostaram de boa música e de longas conversas sobre tudo, desde adesivos para carros até a indústria cinematográfica.

Duas notícias puseram uma pequena curva na amizade dos dois: Augusto fora aprovado para um mestrado no Canadá, enquanto César era chamado para assumir efetivamente um cargo público federal. Despediram-se no aeroporto em meio a lágrimas e brindes com água sem gás. Prometeram mandar e-mails todos os dias e apostaram para ver quem casaria primeiro.

César largou na frente, pois já namorava Raquel há mais de dois anos. Raquel era linda como as modelos das propagandas de cerveja, e não precisou de um bisturi sequer para isso. Era também muito religiosa, e insistia muito para que César visitasse sua igreja.

- Vamos lá, não custa nada. É só uma reunião onde iremos conversar sobre temas da atualidade e depois vamos lanchar. Você não conversa tanto com o Augusto?

- Qual o nome da sua igreja?

- Ela não tem nome, não precisa. Não é o letreiro iluminado que identifica a igreja, mas a atitude dos seus membros.

- Hoje não. Não gosto de igreja.

- Acha que eu te convidaria se soubesse que você não iria gostar? A reunião vai ser na minha casa. Prometo te dar uma coisa muito especial quando acabar...

- Promete mesmo?

- Prometo! E você vai gostar muito...

Ele pensou e pensou. “Finalmente, depois de dois anos na seca, vai chover na minha floresta. É só ir para a bendita reunião, e depois música, jantar e sexo! Mas... o que a fez mudar de ideia? Deixa pra lá, o que vale é que vou me dar bem”.

Augusto chegou a Vancouver sentindo muito frio, mas estava empolgado com seu mestrado em educação. Sua vida no Canadá será totalmente previsível, voltada para sua formação, com uma farra aqui ou ali. De resto, voltará a ser citado nesta narrativa quando retornar ao Brasil.

Chegou o dia da reunião. Tomou um demorado banho, melhor do que se fosse sua mãe a lavá-lo. Vestiu cueca nova, meias novas, calça nova e camisas novas. Só os tênis eram os de sempre. E saiu.

Quando chegou à casa de Raquel, esta já o esperava, com seus amigos da igreja. Era um grupo aparentemente muito alegre e democrático. Não se vestiam como pessoas religiosas, nem o olhavam inquisitoriamente. Sentiu-se bem à vontade.

- Boa tarde, me chamo Cordélia Barroso, e sou a mestra deste grupo. Sinta-se em casa.

- Não se preocupe, sempre me sinto em casa, aqui.

O tema da reunião era este: “do que você tem medo?”

A mestra, muito descontraidamente, falou sobre seus medos. Um a um, cada membro falou sobre suas aflições. Enfim, chegou a vez de César. “Tenho medo de passar determinadas noites sozinho”, disse ele, olhando testosteronativamente para Raquel.

Cordélia levantou-se e posicionou sua cadeira de plástico na frente de César. Sentou-se, pegou suas duas mãos, olhou em seus olhos e disse: “alguém está me dizendo que, em breve, você não precisará passar uma noite sequer sozinho”. Você é especial, é precioso, precisa ser livre dos temores dessa vida”.

César não ouviu, sentiu aquelas palavras. Foram como soar de um potente subwoofer em seu peito. Tremeu. Sentiu gotas de suor descerem das sobrancelhas às bochechas. Aquela mulher possuía uma aura estranha, de divindade, ao mesmo tempo que era tão humana. Por uns instantes deixou de saber quem era. Logo voltou a si, com dupla fome. “Vamos comer, pessoal!”, disse a mestra, sem mais nem menos, largando as mãos do rapaz.

Eram cachorros-quentes. Todos comiam e falavam alto, ao passo que César tentava não sujar sua camisa nova com o molho posto em demasia no seu lanche. Inutilmente. Um grão de milho melado com os condimentos caíra na preciosa vestimenta. Cerrou os dentes para que não saísse o palavrão, afinal, estava no meio de religiosos.

Raquel sussurrou no seu ouvido:

- Daqui a pouco termina tudo, e vou te dar o presente.

“Eu sabia, bastava vir pra essa reunião e estava tudo resolvido. Dou uma coisa que ela quer, ela me dá uma coisa que quero. É hoje que eu tiro a libido da miséria!”. Coitado do jovem...

Um rapaz começou a tocar violão e cantar músicas do tipo “Sou apaixonado por Ti, Deus”, “Sou louco por Ti, Deus”, “Sou completamente alucinado por Ti, Deus”, enquanto seus colegas o acompanhavam harmoniosamente. César estava impaciente. “Deus não deixa ninguém doido, nem com alucinações”.

Raquel conversava baixinho com sua mestra, enquanto lavavam a louça. A impaciência do rapaz o levava a bater os pés no chão, agora acompanhando o ritmo da música. “Por que esse povo não vai embora?”.

Sem perceber, já não estava mais aborrecido com eles, de tanto carinho que lhe transmitiam. Era praticamente a sua família. Só precisavam ir embora, para que ele ganhasse a sua recompensa.

A cantoria para. A mestra pede a palavra.

- Hoje nosso amigo César ganhará um presente especial, dado diretamente pela nossa irmã Raquel. Pode entregar a ele. “Este grupo é tão democrático assim? Minha namorada vai anunciar isso na frente de todo mundo? LOL”

E ela coloca em seu braço uma pulseira, na qual se lia “eu sou uma pessoa especial para os meus irmãos”.

César não acreditava naquilo. No começo, um sorriso amarelo, depois expressão alguma, em seguida o rosto virava um completo “fuuu”. Fizeram um montinho para abraçá-lo, gritando “só falta tomar a sua decisão!”. Chama Raquel a um canto.

- Que merda é essa?

- É o seu presente. Não disse que ia gostar?

- Uma pulseirinha cor-de-rosa é o meu presente?

- Não é só uma pulseira. É um transmissor de reserva de poder espiritual.

- Transmissor de que?

- Use-a por cento e vinte dias e você receberá uma benção especial. Você tá vendo a alegria dos nossos irmãos? Pois é, tudo isso é por causa da reserva de poder espiritual que ganhamos. Você não quer ser feliz? Tudo o que tem a fazer é usar a pulseira.

- Vou embora. Informação demais para a minha cabeça. Decisão...

O rapaz, muito contrariado (epic fail) dirige-se à porta.

- Já vai? Tem certeza que não quer tomar sua decisão hoje?

Bateu a porta atrás de si e saiu. Minutos depois recebeu um SMS de Raquel:

VOCÊ ME FEZ PASSAR VERGONHA DIANTE DA MINHA MESTRA. ELA DISSE QUE VOCÊ NÃO SERVE PARA NAMORAR COMIGO E EU CONCORDEI. ADEUS.

Telefona imediatamente para sua namorada:

- Alô.

- Oi, aqui quem fala é a Cordélia.

- Passa o telefone para a Raquel.

- Não, se quiser falar algo, fale comigo, que sou sua mestra.

- Passa o telefone para a Raquel, sua FANÁTICA DE MERDA!

- Não vou passar. Você é um empecilho na caminhada espiritual da moça, será que não percebe isso? Eu tive o maior trabalho para fazê-la entender que precisava jogar fora tudo aquilo que não a edificava espiritualmente e você quer desfazer tudo? Ela jogou fora os CDs, DVDs e livros que não falavam do nosso Deus. Só faltava jogar fora você, e Deus criou a situação perfeita para que ela entendesse isso.

- Então você ORDENOU que ela terminasse comigo?

- Fui apenas um instrumento nas mãos de Deus. Agora ela está finalmente livre, para namorar e casar com um jovem da nossa igreja, seu ímpio. Ela já está predestinada a se casar com o irmão Dejalmir. Nossa profetiza já havia revelado isso.

- Peraí, jogou fora todos os livros, inclusive os que foram presentes meus? Vai se casar com o irmão quem?

- Sim. Essa semana ela fez isso. Agora está totalmente voltada para Deus.

- Ok, vou desligar. Não tem diálogo com você.

“Que Deus te liberte desses demônios”, sussurrou Cordélia Barroso, após desligar o telefone.

- Então, ele aceitou?, perguntou Raquel.

- Os demônios fizeram-no ter um ataque de ira.

- Coitado...

- Mas sorria, ele não te importunará mais.

- Será que fiz a coisa certa?

- Claro, meu bem! Você é princesa preciosa para Deus. Agora vamos planejar o restante da sua vida.

César tentou ligar de volta algumas vezes, sobretudo porque estava furioso com Cordélia, mas era repetidamente ofendido pela voz mecânica que dizia: “sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens, e estará sujeita a cobrança após o sinal”.

Desde aquele incidente não soube mais notícias de Raquel. Um ano e dez meses depois, foi buscar Augusto no aeroporto.

- Casaste?

- Não, as estrangeiras são muito esquisitas. E tu?

- Também não.

- Tenho uma ótima notícia para te contar: mudei de vida. Conheci um grupo muito alegre de missionários no Canadá, e eles me fizeram ver a verdade.

Mal Augusto terminava a palavra “grupo muito alegre”, César já se dirigia ao estacionamento, para ir embora, com medo do que viria. Dirigiu até o supermercado mais próximo com o intuito de comprar algo para comer. Na fila do caixa, cruza com alguém muito familiar: era Raquel, pálida e muito magra, com os olhos fundos tais como pratos de sopa vazios, praticamente irreconhecível. Segurava um bebê, tão magro quanto ela, que chorava muito.

“Vou fingir que nem vi”, pensou ele. Tarde demais.

- Não fala mais comigo, é?

- Oi, tudo bom?

- Tudo sim, olha a minha camiseta: “encontrei a verdade, sou feliz e mais bonita”. Este é meu bebê, Dejalmir Filho. Eu ia colocar o nome do meu pai, mas a minha mestra disse que não traria crescimento espiritual. E você, já tomou sua decisão?

- Que decisão?

- A de ser feliz como nós.

- ...

- O Dejalmir tava trabalhando perto na tua rua, reformando uma casa, mas sofreu um acidente e está parado agora. A mestra disse que foi falta de fé dele. Concordo com ela. Estamos vivendo do meu serviço.

- ...

- Eu sou empregada doméstica na casa da Cordélia. Estou muito feliz, porque tenho a oportunidade de conseguir mais e mais reserva de poder espiritual com ela. Este já é meu pagamento.

- ...

- Recebi a profecia de que vou ganhar um carro importado, no ano que vem, dependendo do número de aprendizes que eu fizer. Por causa da minha falta de fé eu quase desisti, quando as dificuldades aumentaram. Fui parar no psiquiatra, vê se pode?

- ...

- Ele me disse que a igreja me fazia mal, e quase acreditei. Tomei um monte de remédios controlados para depressão, ansiedade e alucinações, mas voltei a mim e me desculpei com a Cordélia, pela minha fraqueza. Não eram alucinações, era um dom maravilhoso que eu estava recebendo, mas perdi, porque não acreditei. Se a minha fé fosse maior, eu poderia ver o mundo espiritual! Agora, só depois de muita submissão.

-...

- Olha, é a sua vez.

- Não, não, pode passar, que eu pago.

- Obrigada! Dá tchau pro titio César, bebê! Tchau!

César quis pensar sobre tudo aquilo, mas já estava com dor de cabeça. Pagou as compras e foi embora, ouvindo “fake plastic trees” a caminho de casa. A partir daquele dia nunca mais conversou sobre nada com Augusto. Nem sobre adesivos automotivos, nem sobre cinema, muito menos sobre qualquer conceito de felicidade.