quinta-feira, 7 de outubro de 2010

POEMA DE AMOR

Não faço poema sobre

Dor de amor,

Porque o amor

Não me dói.

O amor me alegra.

Me seca o suor

Da camisa depois

Do pesadelo.

Canta para mim

Com a mão nos meus cabelos,

Que hoje são curtos

E em parte brancos.

O amor me faz jovem e velho

E jovem de novo.

O teu amor.

domingo, 19 de setembro de 2010

ESCRITO COM O DEDO INDICADOR

Será uma mordaça capaz de calar o poeta?

O quebrar de seus dois braços

Abortará seu sótão multigrávido de idéias?

Engessar seu pé esquerdo

Cessará seu passeio sereno sobre as cinzas deste seco chão?

Digo que não.

Podem quebrar todos os ossos de seu corpo

E privá-lo de todos sentidos.

Se houver memória, haverá poesia.

Haverá o poeta.

domingo, 5 de setembro de 2010

DOIS CAFÉS. DIGO, UM.

O poeta estava puto. Há mais de oito dias sem escrever uma linha, encontrava-se à beira da sanidade. Necessitava de alguma loucura para criar. Tudo era tão cotidiano, que o irritava profundamente.

- Marcos, traz um café com leite por favor.

- Mais café do que leite?

- Sim.

- Açúcar ao invés de adoçante?

-As coisas com adoçante ficam com sabor de adoçante, e não das coisas. Uma vida apenas com adoçante como opção seria insuportável. Nem seria vida.

- Eu nunca entendo dessas coisas, Sr.

O poeta indagou-se silenciosamente se poderia sentar-se em um real café, ser atendido por um garçom chique e pedir um expresso pensando em como por no papel as dores do mundo. Mas na realidade estava em uma loja de conveniência de um posto de gasolina, ouvindo pessoas com sotaques feios falarem sobre tudo na vida, exceto sobre poesia.

Uma garota magra entra na loja. Veste uma malha cor-de-rosa, jeans e leva nos pés sandálias brancas de plástico, cada uma adornada com um laço. O sutiã com estampa xadrez escapa por entre as reentrâncias da malha, enquanto o poeta a observa indiscretamente. Ela o ignora, senta-se na elevada cadeira de alumínio, enquanto a calça de cintura baixa deixa escapar uma calcinha preta, também decorada com um laço. Haveria mais laços onde o jeans não permitia a visão da calcinha? O poeta corou.

- Marcos, papel e caneta. E mais um café por favor.

- Mais café do que leite?

- Sim.

- Açúcar ao invés de adoçante?

- Sim, Marcos.

O poeta pôr-se a escrever sobre a moça magra de longos cabelos ruivos, com mechas loiras, provavelmente caras de algum salão de beleza.

ELA ALVA

Alva, com olhos amendoados.

Compridos cabelos, da cor de cobre.

Olha para o infinito. E além?

As mãos cerradas uma à outra. Vermelhas.

Sandálias brancas, pequena ela. Via outros,

Mas não se via diante do espelho.

O poeta puto por não poder criar.

E ela, o que era?

Era uma fotografia do porvir.

Na verdade ela não era alva, era como uma índia. Os cabelos não eram ruivos, eram negros. E Marcos, nervoso, na hora de entregar o café, derramou-o sobre o poema, inutilizando-o. O poeta? O poeta estava como qualquer outro: puto.

domingo, 22 de agosto de 2010

SARA JENNIFER

Dizem que a curiosidade matou o gato. Sara Jennifer pensava em como a falta de curiosidade matou o homem. E o homem dentro do homem. “Povo sem graça, só pensa em coisas da moda, não tem identidade. Todo mundo quer ser igual. É o planeta dos sem-rosto, credo”.

Chegara em casa mais tarde que o habitual, depois de uma desagradável discussão com sua melhor amiga, que resolvera mudar radicalmente de pele, seguindo a tendência dos “coloridos”. Lembrou:

- Que merda de visual é esse, Joyce?

- É o visual restart, meu bem. Significa reiniciar, começar de novo, fazer algo diferente. Agora sou nova, ninguém é igual a mim.

- Ninguém, exceto por todos os outros coloridos, né?

- Hã?

- Hã nada, Joyce! Negócio de pulseirinha verde berrante de espiral, calça rosa e camisa azul-bebê. Vitório, vem cá!

- Que é?

- O que você acha dessa nova aparência da nossa colega?

- Porra de armação rosa sem lente, tá doida?

- Não é doida, meu bem, é moda.

- Moda é o meu ovo. Ano passado, se alguém aparecesse com armação sem lente aqui na escola, todo mundo chamaria de doido. Agora é moda. Tomar lá longe...

- Você não entende do mundo fashion, Vitório.

- Mas entendo de gente escrota. E agora gente escrota colorida.

- Joyce, sai dessa, minha filha. Se te mandarem raspar a cabeça e fazer tatuagem de air bender você vai fazer também?

- Se me fizer única, sim.

- Ai, meu ovo do meio! Joyce de avatar aqui na escola, já pensou? Essa eu faço questão de filmar e por no Youtube.

Sara, que tinha consciência de onde tal conversa pararia, finaliza:

- Atenção vocês dois, vou filosofar agora, e acabar com esse papo furado: cada um é cada um, mas sabe o que a merda, digo, a moda, faz? Taca máscara na nossa cara sem pena. Aí esse povo sem noção vira tudo de ponta a cabeça, dizendo que ser o que a moda ensina é o diferente, e que ser você mesmo é falta de estilo. Vamos tomar uma coca-cola antes que o recreio acabe, que estou com sede.

domingo, 15 de agosto de 2010

MEIAS VERDE-LIMÃO

Longa vida ao mais do mesmo. A menina acordou um belo dia, depois de atingida múltiplas vezes com as idéias do revival oitentista, querendo ser retrô. Foi ao guarda-roupa da mãe, pegou uma saia pregueada dos tempos do glam rock, e experimentou. A internet disse que é bonito e ela creu.

Composição: All Star cor-de-rosa, meias verde-limão, a saia pregueada em um azul-colegial, a camisa da escola, bracelete vermelho de plástico, óculos escuros com armação combinando com o bracelete, cabelo sem chapinha (que o que há agora é cacho), e brincos de pena.

Foi para a escola torcendo para encontrar com o João, do terceiro, pelo qual era perdidamente apaixonada. “Vou dar umas reboladas com essa saia da mamãe, duvido se não vai me notar”. Mal ela fechou a boca de seu pensamento, apareceu o João. “Agora vou apressar o passo e caprichar no rebolado”.

- Jéssica, espera.

Ela finge não ouvir e aperta um pouco mais um passo, para se manter sempre à frente. Faltam apenas três quadras para chegar na escola.

- Jéssica, me espera, por favor.

Fingiu não ouvir novamente, se sentindo muito gostosa, no seu visual Lady Gaga do nono ano do ensino fundamental.

- JÉSSICA, ESPERA, QUE TENHO QUE TE FALAR UMA COISA ANTES DE CHEGARMOS NA ESCOLA!

O rapaz continuava seu apelo enquanto andava mais rápido para alcançá-la. No entanto, quanto mais rápido ele andava, mais ela aumentava a velocidade de seu passo e de seu rebolado, até que praticamente corriam os dois. Alcançou-a e a pegou pelo braço, ela virou languidamente e disse “tava me seguindo?”.

- Praticamente. Tem uma coisa que preciso te dizer, desde a hora em que te vi.

- Tem a ver com o meu novo visual?

- Tem sim.

- Pode falar à vontade, não se importe com as pessoas ao nosso redor, pois eu notei que todos viravam para me olhar.

- Jéssica, tenho que te dizer.

- Claro, João.

- A tua saia tá toda pra cima, presa na mochila. Tentei te avisar antes, mas você não me ouviu.

Depois daquele dia, Jéssica passou a tomar mais cuidado com saias e rebolados.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

OS GALHOS ARRANHAM JANELAS

Os galhos arranham janelas
E sombras de medo comunicam a noite.
Os homens que não estão de zero
Dormem o sono dos tolos.
Um grito de socorro
Ouve-se na madrugada afora,
Talvez da boca de um crossdresser em fuga.
O poeta é o observador,
Camuflado no caos de sua escrivaninha interior. 

domingo, 8 de agosto de 2010

Marcleysson dos Santos e Santos

Marcleysson dos Santos e Santos. Detestava o próprio nome, desde que tentou escrevê-lo pela primeira vez. Agora é homem feito, caixa de banco privado, e continua a detestá-lo. Não havia diminutivos agradáveis para tal nome, como Zeca ou Cadu. Em certa época perguntou a sua mãe:

- Mãe, por que não me chamo João ou José, ou até Mário?

- Eu queria Marcos, mas o seu pai decidiu homenagear um jogador de futebol que ele admirava muito.

- É, mamãe, muita ironia eu não saber jogar bola. Agora tenho que aturar o estigma.

- Pense pelo lado bom. Você carrega uma marca do seu pai.

- Uma marca, talvez. Uma cicatriz, com certeza.

A lua do meio-dia brilhava aguda durante o diálogo acima. No mesmo instante, em um hospital público da cidade, nasciam três crianças que seguiriam um destino parecido com o de Marcleysson.