Te deram nove espinhos.
Em mim doeu cada um, dos nove.
Toda lágrima tua era um rio inavegável.
Se nadar tentasse,
Morreria por afogamento em água e sal.
Se nada tentasse,
Morreria por desgosto ante o meu fracasso.
Me plantei entre os dois.
Percorri o caminho do meio.
Quando me apercebi,
Me fitavas com teus olhos vesgos.
Afastei-me de ti,
Como quem corre da dor de saber a hora da morte.
Só então entendi que a angústia de saber a morte
É muito mais doída que morrer enfim.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
segunda-feira, 28 de maio de 2012
SOB A NUVEM
A palavra me desafia com seu flerte.
De soslaio me provoca.
Olha e não ao mesmo tempo.
A palavra me estimula
No meio de tantas vozes.
Há multidão,
Centenas de cabeças que se batem.
A palavra pula sobre elas
Como em pedras de um regato.
Está na nuvem,
Disponível a todas as mãos.
Ninguém a pega.
Ninguém.
Nem ao menos uma garotinha
Com seu diário digital.
(Marabá, 28/05/12)
De soslaio me provoca.
Olha e não ao mesmo tempo.
A palavra me estimula
No meio de tantas vozes.
Há multidão,
Centenas de cabeças que se batem.
A palavra pula sobre elas
Como em pedras de um regato.
Está na nuvem,
Disponível a todas as mãos.
Ninguém a pega.
Ninguém.
Nem ao menos uma garotinha
Com seu diário digital.
(Marabá, 28/05/12)
quarta-feira, 2 de maio de 2012
NO ÚLTIMO CHUVISCO
Abre a janela do teu quarto, vê
Debaixo do sol que eu e tu bronzeia
No oco da castanha um passarinho bica
À lupa por pão que um inseto seja
Eu corri para te ver a ver o que te disse ver
Tropiquei, rolei três vezes
Quase deixei cair o coração
Na outra mão tinha um bilhete
Ele se foi
O sol me disse assim,
Seria o som da tua pele
Um cheiro no meu cabelo
Que lavei pra ti.
Desconheço o autor
Das três estrelas que tu tens
Abre a janela e espia a castanheira já floriu
O sol me disse assim.
Seria o som da tua pele
A borboleta que fotografei
No último chuvisco?
segunda-feira, 9 de abril de 2012
OS ANIMAIS NA FILA DO BANCO
Segunda-feira,
retorno de feriado prolongado: fuga em massa dos balneários em direção à Meca dos
desprevenidos – a fila do banco. Qualquer banco. Público, privado, com ou sem
estrelas. Mas com gente. Muita gente. E gente falando ao telefone. E telefones
tocando com gente de fora da fila querendo falar com gente que está na fila. Incrível
como se pode saber de detalhes curiosos a respeito da vida de um desconhecido
ouvindo trinta segundos de conversa ao telefone celular. Sabe-se de tudo. Em trinta
segundos apenas.
Marido
ao telefone com a esposa:
- Ainda estou no banco. Não, não, não. Sim, não. N...ão,
sim, quero. Quero sim. Quero o meu bife bem passado. Tá, tá, deixa tampado, que
vou demorar muito.
Marido
ao telefone com a amante:
- Oi, benzinho (com uma voz desajeitadamente dengosa), tô quase
saindo daqui, viu? Sim, sim, sim. Sim, s....sim, claro. Levo sim. Não precisa
se incomodar, nem estou com fome. Sim, s...sim. Quanto meu benzinho quer? Te
amo – pausa do outro lado – te amo, ouviu? Já disse que você pode dizer que me
ama, benzinho. Não tenha vergonha do nosso amor. Te amo.
Marido
ao telefone com a esposa de novo:
- Já não te falei que tô no banco? Morrendo de fome, claro!
A minha senha é a 953, agora que tá na 207. Vou demorar sim. Tá, bom, tchau.
Hã? Por que eu nunca respondo quando você diz que me ama? Ainda preciso falar? Fica
na linha, que tem alguém do serviço ligando aqui. Peraí, peraí.
Marido
ao telefone com a amante na chamada ativa e a esposa na chamada em espera:
- Oi, benzinho... Por que? Meu benzinho não tá se sentindo bem?
Tá bom, benzinho, a gente se vê amanhã. Te amo, tchau (Marido esquece de
desligar a chamada da amante).
Marido
de volta ao telefone com a esposa:
- Um milagre aconteceu. Um amigo passou mal e me deu a
senha. Sou o próximo da fila. Devo chegar em casa daqui a pouco. (Marido olha o
telefone e percebe a chamada da amante ainda ativa. Tenta alternar as chamadas,
mas permanece na chamada com a esposa.)
Parêntese:
Houve
um súbito silêncio. Silêncio maior do que os segundos que antecederam a criação
do mundo. Repentinamente, toca um telefone, depois outro, e mais outro, e
outro, e outro, e outro... Um curió. Dois curiós, gargalhadas de bebês, bem-te-vis,
galinhas, cães, gatos, mais curiós, e,
pasmem, um porco no momento de sua castração. Cuí, cuí, cuí, cuí, cuí. Quem usa grito de porco sendo castrado
como toque de celular?
- Benzinho, te amo... tá aí ainda? Cl... cl... claro que te
chamo de benzinho. Te chamo de benzinho direto! Todo dia, você é que não
percebe nada em mim. Não queria tanto que dissesse que te amo, depois de todos
esses vinte anos de casamento? Então, falei.
O dono
do telefone com toque de porco continuava sem atendê-lo. Cuí, cuí, cuí, cuí, cuí, cuí,
cuí, cuí, cuí, cuí... Quem usa grito de porco sendo castrado como toque de
celular? Celular não tem uma opção para só vibrar no bolso ou bolsa? Precisa realmente do porco?
Precisa?
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
MEME #1 OU PARA FILOSOFAR
- Professor, eu estava conversando com meu tio sobre filosofia.
- É mesmo?
- Ele me disse que, para desenvolvermos o espírito filosófico, devemos agir como a vaca.
- Devemos aprender a ruminar, como parte do processo reflexivo de volta do pensamento sobre si mesmo. Interessante...
- Não, professor. A gente tem que aprender a cagar e andar #trollface
- #foreveralone
- É mesmo?
- Ele me disse que, para desenvolvermos o espírito filosófico, devemos agir como a vaca.
- Devemos aprender a ruminar, como parte do processo reflexivo de volta do pensamento sobre si mesmo. Interessante...
- Não, professor. A gente tem que aprender a cagar e andar #trollface
- #foreveralone
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
TANTALOAR
Era uma vez um vazio.
Nada o preenchia.
Comer canetas, rasgar certezas,
Cobrir o chão com gestos infames e palavrões.
Não era possível rasgar os dois minutos que antecediam a
vergonha.
Não era possível rasgar ao meio a expectativa ruim.
Era uma vez um vazio,
Cada vez mais vazio.
Outros vazios a ele pareciam conectar-se;
No entanto, refugiavam-se no interior vazio
Do seu interior esvaziado de sentido.
Era uma vez um monte de gente que queria.
Gente que queria muito e tudo estava
Ao alcance de suas mãos e bocas.
Acima e abaixo.
Desejavam tudo e tudo era disponível.
Não havia limites
Exceto
O limite de em nada poder tocar.
O vazio alimentava-se de sua insatisfação.
Não se satisfazer, e nisto obter prazer, virou regra
-
“cumpra-se” –
E lavar as mãos compulsivamente também.
Nada o preenchia.
O vazio e sua continuação.
sábado, 28 de janeiro de 2012
PARA QUEM VIVE COM MUSEUS E VESTIDOS DE FLORES OU FOLHAS
é o teu vestido
que não lembro se era flor ou folha
mas era belo o teu pé
e também o outro
nos decotes dos teus
sapatos de boneca
é o teu vestido
esvoaça nos corredores do tempo
correm menos os teus sapatos de boneca.
parecem mover-se imóveis
como numa esteira oculta.
é o teu olho
é a tua boca
é o teu hálito
é o teu ouvido nas palavras
que te digo maciamente
escondido
nas folhas ou flores
do teu vestido
é o eu te querer bem
e não necessitar explicar isso
é o teu vestido e o que tem dentro dele
és tu.
tu em absoluto.
tu quando as palavras emudecem
o som que ouço é o dos teus sapatos de boneca.
não preciso de mais nada por ora.
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