quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

MEME #1 OU PARA FILOSOFAR

- Professor, eu estava conversando com meu tio sobre filosofia.
- É mesmo?
- Ele me disse que, para desenvolvermos o espírito filosófico, devemos agir como a vaca.
- Devemos aprender a ruminar, como parte do processo reflexivo de volta do pensamento sobre si mesmo. Interessante...
- Não, professor. A gente tem que aprender a cagar e andar #trollface
- #foreveralone

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

TANTALOAR



Era uma vez um vazio.
Nada o preenchia.
Comer canetas, rasgar certezas,
Cobrir o chão com gestos infames e palavrões.
Não era possível rasgar os dois minutos que antecediam a vergonha.
Não era possível rasgar ao meio a expectativa ruim.

Era uma vez um vazio,
Cada vez mais vazio.
Outros vazios a ele pareciam conectar-se;
No entanto, refugiavam-se no interior vazio
Do seu interior esvaziado de sentido.

Era uma vez um monte de gente que queria.
Gente que queria muito e tudo estava
Ao alcance de suas mãos e bocas.
Acima e abaixo.
Desejavam tudo e tudo era disponível.
Não havia limites
Exceto
O limite de em nada poder tocar.
O vazio alimentava-se de sua insatisfação.
Não se satisfazer, e nisto obter prazer, virou regra
                               - “cumpra-se” –
E lavar as mãos compulsivamente também.

Nada o preenchia.
O vazio e sua continuação.

sábado, 28 de janeiro de 2012

PARA QUEM VIVE COM MUSEUS E VESTIDOS DE FLORES OU FOLHAS

é o teu vestido
que não lembro se era flor ou folha
mas era belo o teu pé
e também o outro
nos decotes dos teus
sapatos de boneca

é o teu vestido
esvoaça nos corredores do tempo
correm menos os teus sapatos de boneca.
parecem mover-se imóveis
como numa esteira oculta.

é o teu olho
é a tua boca
é o teu hálito
é o teu ouvido nas palavras
que te digo maciamente
escondido
nas folhas ou flores
do teu vestido

é o eu te querer bem
e não necessitar explicar isso
é o teu vestido e o que tem dentro dele

és tu.
tu em absoluto.
tu quando as palavras emudecem
o som que ouço é o dos teus sapatos de boneca.

não preciso de mais nada por ora.

domingo, 27 de novembro de 2011

BEM-NOVO-QUERER


A medida do teu cansaço é o tamanho dos sóis que te queimam a pele
A tua beleza resiste. Guerra de astros como em contos helenos,
mas o que é mais forte vence.
Vence.
Ouve-se violões ao longe, nem tão longe, de ciganos.
Não se distingue o que se canta,
mas o lamento é de bem querer.
Bem te quero e te pergunto quando te cobrirá a água do próximo inverno,
que virá sem neve, como os outros.
A imensidão de teu corpo é menor que a palma de uma criança.
Ciganos aproximam-se.
Quero me esconder no meio de tuas folhas, porque um dia lá estive. Ao menos por um dia cinzento.
Toque-me no tempo certo da noite que nunca chega,
com esta pele queimada por vários sóis em fúria.
Então esperarei baixarem as águas novamente.

(poema do ano de 2004, não me lembro o mês)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

PRIMEIRO POEMA SOBRE A MENTIRA


Quando quiseres enganar alguém,
Não dê a entender que não enganas.
Deixa habilmente o vapor do teu veneno escapar
pelas pequenas frestas entre dentes
- este veneno é a ilusão. É o torpor da poesia de quem mente.
É como o sol a iluminar e cegar no mesmo rastro.

A mentira esconde-se detrás de uma parede de papel.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

DOUBLE TROUBLE


Double trouble. Ironicamente, era a música tocada no aparelho de som do carro, quando tocou seu telefone.

- Alô.
- Já tá chegando?
- Onde?
- Você não marcou comigo, criatura?
- É mesmo. Já tá aí?
- Qualquer lugar em que eu esteja é aqui, para mim.
- Você entendeu. Espera, tem uma outra chamada aqui. Alô.
- Você não vem mais?
- Sim, vou sim, só estou resolvendo um problema, mas chegarei em vinte minutos ou menos.
- Não demore.
- Oi, voltei.
- Onde a gente marcou mesmo?
- No posto de gasolina. Deixo o meu carro aqui e vamos no seu.
- Em que posto mesmo? Espera, outra chamada aqui.
- Estou com pressa, você não vem?
- Vou, vou sim. Onde marcamos mesmo?
- Na frente da casa da minha vizinha, que é para não gerar suspeitas.
- Ok.
- Não demore.
- Alô, voltei. Em que posto você está?
- Posto? Não tô em posto nenhum, tô em casa.
- Ok, ok. Tô indo praí.
- Não, não vem. Não tem como a gente se ver agora. Liguei pra avisar.
- Tá, tá.
- Oi, alô.
- O frentista já veio aqui umas duzentas vezes perguntar se quero álcool ou gasolina.
- Já combinou com a tua vizinha?
- Que vizinha?
-  Nada, estou ficando doido. Já estou a caminho. Só atender um telefonema aqui.
- A vizinha perguntou se você pode passar na loja de conveniência do posto e comprar sorvete pro filho dela.
- Claro, claro. Comum ou aditivado?
- Hã?
- Já estou a caminho. Alô, estou de volta.
- Tudo bem. Está com as flores?
- Que flores?
- Esqueceu que vamos a um velório?

***

sábado, 17 de setembro de 2011

SEM ESTRELAS


- Ah, escrevi um texto pra ti.
- Sério? Me mostra!
- Aqui. (tira do bolso da camisa – embora moleque, coisa de homem com data de nascimento antiga – o papel amassado)
                Ela o lê.

“Você é um pedacinho
De cada coisa boa no mundo
Que vem tal aquele gosto de infância
Que deixa saudade ao partir

É aquela estrela de que fala a música

Quando sentir minha falta
E quiser me achar
Siga a trilha de corações
Que rabisquei no céu”

                Ela nada diz. Dobra o papel e o devolve.

- Não gostou?
- Gostei. Muito. Mas poesia não é pra mim. Minha vida não tem poesia.

                E foi embora, deixando atrás de si a trilha das suas sandálias de borracha.