sábado, 16 de outubro de 2010

O POETA

Panela de sopa de carne sobre a mesa do computador,
Lápis enfiado de travessa no cabelo e com algumas mechas soltas
All star preto comum balançando nos pés, escrevendo...
... textos, reflexões poesias, não precisa rimar.
Basta apenas ter sentido para quem lê
E a cada garfada, uma nova ideia.
Casos e acasos,
Alguns contam histórias verdadeiras, outras apenas ficção.
Algumas têm o sentimentalismo, e outras uma ponta de ironia
Mas todas têm algo em comum: retratam por menor que seja,
Algo que após ser lido foi ou é real para alguém.
E enquanto houver a simples poesia, o simples texto
Escrito a mão ou nos teclados do notebook,
Haverá o poeta, haverá o significado,
As lágrimas, os risos, o sarcamo.
E não são apenas textos feitos para se passar o tempo
Retratam o sofrimento escondido
Por entre tantas e tantas linhas da vida
Você vai abrir seus olhos.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

NOTA AOS MESTRES

Dia do professor. Duas e meia da manhã. Eu, Karla e a Valentina na barriga da Karla. Apesar dos braços engessados, persisto a digitar com um dedo só. Desejo aos meus colegas mestres toda a felicidade do mundo, e também a mim, e à Karla e à Valentina na barriga da Karla. Tenho fé, amigos, que as coisas melhorarão. Por isso estamos no magistério. Grávidos, não sem dor. Mas com fé.

PARA O TEU OUTONO

O alarme de todos os dias

Grita-me.

Grita-me

O que devo e o que não devo.

Tenta abrir meus olhos

Que não ouvem,

Não neste poema pequeno.

 

O poema diminuiu.

Dói-me o espaço

De cento e quarenta caracteres do poema.

Dói-me a higiene do abraço ausente,

Dói-me o ódio da multidão sem corpo.

 

O alarme grita-me o que não devo.

O que não devo?

Digo o que não devo.

Não devo me contentar com as folhas secas

Do teu outono que precede o inverno de lençóis sozinhos.

Para mim

Mais é a umidade daquele verão

E das sementes lançadas

Na terra

Que arei com dedos e unhas curtas

 - A terra que tomei.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

POEMA DE AMOR

Não faço poema sobre

Dor de amor,

Porque o amor

Não me dói.

O amor me alegra.

Me seca o suor

Da camisa depois

Do pesadelo.

Canta para mim

Com a mão nos meus cabelos,

Que hoje são curtos

E em parte brancos.

O amor me faz jovem e velho

E jovem de novo.

O teu amor.

domingo, 19 de setembro de 2010

ESCRITO COM O DEDO INDICADOR

Será uma mordaça capaz de calar o poeta?

O quebrar de seus dois braços

Abortará seu sótão multigrávido de idéias?

Engessar seu pé esquerdo

Cessará seu passeio sereno sobre as cinzas deste seco chão?

Digo que não.

Podem quebrar todos os ossos de seu corpo

E privá-lo de todos sentidos.

Se houver memória, haverá poesia.

Haverá o poeta.

domingo, 5 de setembro de 2010

DOIS CAFÉS. DIGO, UM.

O poeta estava puto. Há mais de oito dias sem escrever uma linha, encontrava-se à beira da sanidade. Necessitava de alguma loucura para criar. Tudo era tão cotidiano, que o irritava profundamente.

- Marcos, traz um café com leite por favor.

- Mais café do que leite?

- Sim.

- Açúcar ao invés de adoçante?

-As coisas com adoçante ficam com sabor de adoçante, e não das coisas. Uma vida apenas com adoçante como opção seria insuportável. Nem seria vida.

- Eu nunca entendo dessas coisas, Sr.

O poeta indagou-se silenciosamente se poderia sentar-se em um real café, ser atendido por um garçom chique e pedir um expresso pensando em como por no papel as dores do mundo. Mas na realidade estava em uma loja de conveniência de um posto de gasolina, ouvindo pessoas com sotaques feios falarem sobre tudo na vida, exceto sobre poesia.

Uma garota magra entra na loja. Veste uma malha cor-de-rosa, jeans e leva nos pés sandálias brancas de plástico, cada uma adornada com um laço. O sutiã com estampa xadrez escapa por entre as reentrâncias da malha, enquanto o poeta a observa indiscretamente. Ela o ignora, senta-se na elevada cadeira de alumínio, enquanto a calça de cintura baixa deixa escapar uma calcinha preta, também decorada com um laço. Haveria mais laços onde o jeans não permitia a visão da calcinha? O poeta corou.

- Marcos, papel e caneta. E mais um café por favor.

- Mais café do que leite?

- Sim.

- Açúcar ao invés de adoçante?

- Sim, Marcos.

O poeta pôr-se a escrever sobre a moça magra de longos cabelos ruivos, com mechas loiras, provavelmente caras de algum salão de beleza.

ELA ALVA

Alva, com olhos amendoados.

Compridos cabelos, da cor de cobre.

Olha para o infinito. E além?

As mãos cerradas uma à outra. Vermelhas.

Sandálias brancas, pequena ela. Via outros,

Mas não se via diante do espelho.

O poeta puto por não poder criar.

E ela, o que era?

Era uma fotografia do porvir.

Na verdade ela não era alva, era como uma índia. Os cabelos não eram ruivos, eram negros. E Marcos, nervoso, na hora de entregar o café, derramou-o sobre o poema, inutilizando-o. O poeta? O poeta estava como qualquer outro: puto.

domingo, 22 de agosto de 2010

SARA JENNIFER

Dizem que a curiosidade matou o gato. Sara Jennifer pensava em como a falta de curiosidade matou o homem. E o homem dentro do homem. “Povo sem graça, só pensa em coisas da moda, não tem identidade. Todo mundo quer ser igual. É o planeta dos sem-rosto, credo”.

Chegara em casa mais tarde que o habitual, depois de uma desagradável discussão com sua melhor amiga, que resolvera mudar radicalmente de pele, seguindo a tendência dos “coloridos”. Lembrou:

- Que merda de visual é esse, Joyce?

- É o visual restart, meu bem. Significa reiniciar, começar de novo, fazer algo diferente. Agora sou nova, ninguém é igual a mim.

- Ninguém, exceto por todos os outros coloridos, né?

- Hã?

- Hã nada, Joyce! Negócio de pulseirinha verde berrante de espiral, calça rosa e camisa azul-bebê. Vitório, vem cá!

- Que é?

- O que você acha dessa nova aparência da nossa colega?

- Porra de armação rosa sem lente, tá doida?

- Não é doida, meu bem, é moda.

- Moda é o meu ovo. Ano passado, se alguém aparecesse com armação sem lente aqui na escola, todo mundo chamaria de doido. Agora é moda. Tomar lá longe...

- Você não entende do mundo fashion, Vitório.

- Mas entendo de gente escrota. E agora gente escrota colorida.

- Joyce, sai dessa, minha filha. Se te mandarem raspar a cabeça e fazer tatuagem de air bender você vai fazer também?

- Se me fizer única, sim.

- Ai, meu ovo do meio! Joyce de avatar aqui na escola, já pensou? Essa eu faço questão de filmar e por no Youtube.

Sara, que tinha consciência de onde tal conversa pararia, finaliza:

- Atenção vocês dois, vou filosofar agora, e acabar com esse papo furado: cada um é cada um, mas sabe o que a merda, digo, a moda, faz? Taca máscara na nossa cara sem pena. Aí esse povo sem noção vira tudo de ponta a cabeça, dizendo que ser o que a moda ensina é o diferente, e que ser você mesmo é falta de estilo. Vamos tomar uma coca-cola antes que o recreio acabe, que estou com sede.