segunda-feira, 28 de maio de 2012

SOB A NUVEM

A palavra me desafia com seu flerte.
De soslaio me provoca.
Olha e não ao mesmo tempo.
A palavra me estimula
No meio de tantas vozes.
Há multidão,
Centenas de cabeças que se batem.
A palavra pula sobre elas
Como em pedras de um regato.
Está na nuvem,
Disponível a todas as mãos.
Ninguém a pega.
Ninguém.
Nem ao menos uma garotinha
Com seu diário digital.

(Marabá, 28/05/12)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

NO ÚLTIMO CHUVISCO


Abre a janela do teu quarto, vê
Debaixo do sol que eu e tu bronzeia
No oco da castanha um passarinho bica
À lupa por pão que um inseto seja

Eu corri para te ver a ver o que te disse ver
Tropiquei, rolei três vezes
Quase deixei cair o coração

Na outra mão tinha um bilhete
Ele se foi

O sol me disse assim,
Seria o som da tua pele
Um cheiro no meu cabelo
Que lavei pra ti.

Desconheço o autor
Das três estrelas que tu tens
Abre a janela e espia a castanheira já floriu

O sol me disse assim.
Seria o som da tua pele
A borboleta que fotografei
No último chuvisco?


segunda-feira, 9 de abril de 2012

OS ANIMAIS NA FILA DO BANCO


                Segunda-feira, retorno de feriado prolongado: fuga em massa dos balneários em direção à Meca dos desprevenidos – a fila do banco. Qualquer banco. Público, privado, com ou sem estrelas. Mas com gente. Muita gente. E gente falando ao telefone. E telefones tocando com gente de fora da fila querendo falar com gente que está na fila. Incrível como se pode saber de detalhes curiosos a respeito da vida de um desconhecido ouvindo trinta segundos de conversa ao telefone celular. Sabe-se de tudo. Em trinta segundos apenas.
                Marido ao telefone com a esposa:

- Ainda estou no banco. Não, não, não. Sim, não. N...ão, sim, quero. Quero sim. Quero o meu bife bem passado. Tá, tá, deixa tampado, que vou demorar muito.

                Marido ao telefone com a amante:

- Oi, benzinho (com uma voz desajeitadamente dengosa), tô quase saindo daqui, viu? Sim, sim, sim. Sim, s....sim, claro. Levo sim. Não precisa se incomodar, nem estou com fome. Sim, s...sim. Quanto meu benzinho quer? Te amo – pausa do outro lado – te amo, ouviu? Já disse que você pode dizer que me ama, benzinho. Não tenha vergonha do nosso amor. Te amo.

                Marido ao telefone com a esposa de novo:

- Já não te falei que tô no banco? Morrendo de fome, claro! A minha senha é a 953, agora que tá na 207. Vou demorar sim. Tá, bom, tchau. Hã? Por que eu nunca respondo quando você diz que me ama? Ainda preciso falar? Fica na linha, que tem alguém do serviço ligando aqui. Peraí, peraí.

                Marido ao telefone com a amante na chamada ativa e a esposa na chamada em espera:

- Oi, benzinho... Por que? Meu benzinho não tá se sentindo bem? Tá bom, benzinho, a gente se vê amanhã. Te amo, tchau (Marido esquece de desligar a chamada da amante).

                Marido de volta ao telefone com a esposa:

- Um milagre aconteceu. Um amigo passou mal e me deu a senha. Sou o próximo da fila. Devo chegar em casa daqui a pouco. (Marido olha o telefone e percebe a chamada da amante ainda ativa. Tenta alternar as chamadas, mas permanece na chamada com a esposa.)

Parêntese:

                Houve um súbito silêncio. Silêncio maior do que os segundos que antecederam a criação do mundo. Repentinamente, toca um telefone, depois outro, e mais outro, e outro, e outro, e outro... Um curió. Dois curiós, gargalhadas de bebês, bem-te-vis,  galinhas, cães, gatos, mais curiós, e, pasmem, um porco no momento de sua castração. Cuí, cuí, cuí, cuí, cuí. Quem usa grito de porco sendo castrado como toque de celular?
                 
- Benzinho, te amo... tá aí ainda? Cl... cl... claro que te chamo de benzinho. Te chamo de benzinho direto! Todo dia, você é que não percebe nada em mim. Não queria tanto que dissesse que te amo, depois de todos esses vinte anos de casamento? Então, falei.

                O dono do telefone com toque de porco continuava sem atendê-lo. Cuí, cuí, cuí, cuí, cuí, cuí, cuí, cuí, cuí, cuí... Quem usa grito de porco sendo castrado como toque de celular? Celular não tem uma opção para só vibrar no bolso ou bolsa? Precisa realmente do porco?
                Precisa?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

MEME #1 OU PARA FILOSOFAR

- Professor, eu estava conversando com meu tio sobre filosofia.
- É mesmo?
- Ele me disse que, para desenvolvermos o espírito filosófico, devemos agir como a vaca.
- Devemos aprender a ruminar, como parte do processo reflexivo de volta do pensamento sobre si mesmo. Interessante...
- Não, professor. A gente tem que aprender a cagar e andar #trollface
- #foreveralone

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

TANTALOAR



Era uma vez um vazio.
Nada o preenchia.
Comer canetas, rasgar certezas,
Cobrir o chão com gestos infames e palavrões.
Não era possível rasgar os dois minutos que antecediam a vergonha.
Não era possível rasgar ao meio a expectativa ruim.

Era uma vez um vazio,
Cada vez mais vazio.
Outros vazios a ele pareciam conectar-se;
No entanto, refugiavam-se no interior vazio
Do seu interior esvaziado de sentido.

Era uma vez um monte de gente que queria.
Gente que queria muito e tudo estava
Ao alcance de suas mãos e bocas.
Acima e abaixo.
Desejavam tudo e tudo era disponível.
Não havia limites
Exceto
O limite de em nada poder tocar.
O vazio alimentava-se de sua insatisfação.
Não se satisfazer, e nisto obter prazer, virou regra
                               - “cumpra-se” –
E lavar as mãos compulsivamente também.

Nada o preenchia.
O vazio e sua continuação.

sábado, 28 de janeiro de 2012

PARA QUEM VIVE COM MUSEUS E VESTIDOS DE FLORES OU FOLHAS

é o teu vestido
que não lembro se era flor ou folha
mas era belo o teu pé
e também o outro
nos decotes dos teus
sapatos de boneca

é o teu vestido
esvoaça nos corredores do tempo
correm menos os teus sapatos de boneca.
parecem mover-se imóveis
como numa esteira oculta.

é o teu olho
é a tua boca
é o teu hálito
é o teu ouvido nas palavras
que te digo maciamente
escondido
nas folhas ou flores
do teu vestido

é o eu te querer bem
e não necessitar explicar isso
é o teu vestido e o que tem dentro dele

és tu.
tu em absoluto.
tu quando as palavras emudecem
o som que ouço é o dos teus sapatos de boneca.

não preciso de mais nada por ora.

domingo, 27 de novembro de 2011

BEM-NOVO-QUERER


A medida do teu cansaço é o tamanho dos sóis que te queimam a pele
A tua beleza resiste. Guerra de astros como em contos helenos,
mas o que é mais forte vence.
Vence.
Ouve-se violões ao longe, nem tão longe, de ciganos.
Não se distingue o que se canta,
mas o lamento é de bem querer.
Bem te quero e te pergunto quando te cobrirá a água do próximo inverno,
que virá sem neve, como os outros.
A imensidão de teu corpo é menor que a palma de uma criança.
Ciganos aproximam-se.
Quero me esconder no meio de tuas folhas, porque um dia lá estive. Ao menos por um dia cinzento.
Toque-me no tempo certo da noite que nunca chega,
com esta pele queimada por vários sóis em fúria.
Então esperarei baixarem as águas novamente.

(poema do ano de 2004, não me lembro o mês)